Benjamin Salles Duarte*

Hipótese é hipótese. Previsão é previsão. Resultado é resultado, principalmente de longo prazo num mundo em permanente mudança nos eixos econômico, social, domínios dos recursos naturais e ganhos na ciência e tecnologia. Os avanços foram memoráveis e as inovações geradas pela pesquisa agropecuária, entre outros saberes acumulados num complexo elenco de demandas, mudaram as artes milenares de plantar, criar, e abriram novos horizontes e oportunidades a exigir conhecimentos e habilidades humanas cada vez mais aprimorados nas atividades agrossilvipastoris, e mantendo-se uma sintonia fina com os mercados interno e externo, indispensáveis à tomada de decisão dos empreendedores rurais.

Ora, num cálculo conservador, pois não há consenso entre os pesquisadores, presume-se 9,3 bilhões de habitantes em 2050, diante dos atuais 7,6 bilhões, e uma taxa média mundial de urbanização de 75% (ONU).

No Brasil, essa taxa média de urbanização é de 85%, e na região Sudeste, 91,2%. Em 2018, a população atinge 208,4 milhões de brasileiros, com previsão de 228 milhões em 2030; 238 milhões em 2050; e com tendências de redução até o ano 2100. O 1º Censo foi determinado pelo Imperador Dom Pedro II, em 1872, e a população residente somava 9,93 milhões de habitantes, à época, evoluindo para 208,4 milhões em 2018 ou mais 1.998% ou cresceu 21 vezes (IBGE).

Projeções futuras implicam em avaliar as exigências crescentes nos cenários agroalimentares, sistemas de distribuição, no saneamento básico, na oferta de moradias, segurança pública, educação de qualidade, pesquisa de ponta, saúde pública, sustentabilidade como conceito e prática, no tratamento e reciclagem dos lixos, abastecimento de água para múltiplos usos e num conjunto de milhares de outras condicionantes ligadas ao bem-estar social, entendido como renda e qualidade de vida! Não há como isolar as logísticas dos avanços demográficos.

A sociedade do presente, por seus líderes, entidades, planejadores e governos, poderá estar gastando muito tempo na prospecção de problemas e exercendo poucas e efetivas ações para superar obstáculos e oferecer soluções práticas numa perspectiva do futuro presumível. O que se aprendeu e se aprenderá com um passado não muito distante, que são referências numa trajetória histórica e econômica? O dinâmico agronegócio de hoje tem muito do ontem! Em 1909, o botânico e geneticista norte-americano George Harrison Shull, através da heterose ou “vigor híbrido” desenvolveu as primeiras sementes híbridas de milho no mundo (Seednews).

Hoje, o milho é o grão mais cultivado no planeta Terra, com mais de 1 bilhão de toneladas na safra 2017/2018. A prática da adubação, com restos culturais, começou na China na região do rio Amarelo há 8 mil anos a.C., e o notável químico e cientista alemão Justus von Liebig, em 1842, estabeleceu a fórmula do N-P-K revolucionando a agricultura no mundo e seus ganhos de produção e produtividade por unidade de área cultivada (Google). O processo de “domesticação” da soja, originária da China, ocorreu no século XI a.C, a partir de cruzamentos naturais feitos por cientistas chineses (Aprosoja). O Brasil é hoje o 2º produtor mundial e o 1º exportador. O futuro começou ontem!

Pode-se aceitar que a proposta robotização da agricultura terá também que considerar o que se chama de “arquitetura da planta”, ou seja, um pé de milho se difere de um pé de soja e a exigir tecnologias de ponta diferenciadas até nos tratos culturais. Como colher roboticamente o cacau? O tomate de mesa? A pimenta? O pêssego? A goiaba? Como se comportaria a robotização na agricultura de montanha? Haja pesquisa e desenvolvimento!

Portanto, não se constrói a ciência e tecnologia partindo-se do nada. Contudo, qual o futuro dos milhões de excluídos pelas tecnologias poupadoras de mão de obra, não apenas no campo como também nas cidades? Por vários fatores associados, mas excludentes, o País ainda coleciona 13,4 milhões de desempregados, em 2018, com seu corolário de consequências econômicas, familiares e sociais. O jornalista Ricardo Boechat, brilhante, disse uma frase lapidar; “A riqueza não iguala os homens, mas a miséria sim.”

O Brasil é o 2º maior produtor mundial de alimentos, depois dos EUA, e o agronegócio uma “âncora verde” à economia nacional, que sinaliza discreta recuperação e a depender das reformas governamentais. Em 2018, o superávit nas exportações do agronegócio brasileiro foi de US$ 87,6 bilhões ou R$ 321,50 bilhões, dólar médio comercial de R$ 3,67, mas nos demais produtos exportados houve um déficit de US$ 28,9 bilhões (Fiesp).

*Engenheiro agrônomo