Crédito: arquivo pessoal

Bruno de Lacerda*

Dispomos de mais informações e opções do que nunca, porém, perdemos a capacidade de nos atentar para o que realmente importa. Por isso, este artigo carrega o título da célebre frase de Marcos Junior. Faz-nos refletir sobre o paradoxo do acesso (excesso) de informação que provoca uma visão turva e superficial das coisas.

Caso se interesse pelo tema, este artigo fará com que perceba como a nossa inteligência está se desacoplando da consciência. Irei abordar a inovação através de um viés comportamental, analisando o impacto da difusão da internet e, mais acentuadamente, com o advento das mídias sociais.

Um futurista chamado Buckminster Fuller desenvolveu o conceito da “Curva de Duplicação de Conhecimento”. Para ele, até o ano de 1900, o conhecimento humano dobrava a cada século. Ao final da 2ª Guerra Mundial, o conhecimento já duplicava a cada 25 anos. Hoje, Fuller afirma que bastam apenas 12 meses para um indivíduo dobrar a sua capacidade de conhecimento.

Só temos que atentar para um ponto muito importante. Informação não é conhecimento! Tudo começa com os dados, que organizados (estruturados) geram a informação, que, em um próximo estágio de entendimento e cognição, gera o conhecimento. Daí, vêm os estágios seguintes, com os insights e a tal desejada sabedoria.

Um exemplo clássico de que informação não é conhecimento são as fake news. Esse tipo de notícia falsa tem um grande poder viral, espalhando-se rapidamente e ocasionando com que as pessoas repliquem o material – informativo – sem confirmar a veracidade do conteúdo.

O termo pós-verdade descreve o tipo de situação na qual os fatos objetivos têm menos influência que apelos emocionais e crenças pessoais. Cada pessoa tem a sua interpretação e a busca pela suposta verdade passa para o segundo plano. Nietzsche admitia: “não há fatos, apenas versões”.

Além do comportamento de manada, a necessidade de estarmos antenados e a questão do pertencimento social fazem com que não chequemos as informações. Devido a informações em demasia, acreditamos que já temos o conhecimento necessário, não investigando a fundo os fatos e muito menos desenvolvendo massa crítica com relação ao tema. Isso resulta na perda da capacidade de aprofundar nos assuntos e matérias.

Aqui cabe citar o polêmico e genial Umberto Eco: “As redes sociais dão o direito de falar a uma legião de idiotas que antes só falavam em um bar depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a humanidade. Então, eram rapidamente silenciados, mas, agora, têm o mesmo direito de falar que um prêmio Nobel. É a invasão dos imbecis”.

O excesso de informações e dados é tão grande que não temos tempo para absorver e decidir o que realmente é importante, que de fato irá agregar de conhecimento. Então lhe faço a pergunta: Quando parou para ler ou estudar com profundidade o tanto de material (e-books, artigos, revistas online etc) que baixou na internet ou mesmo deixou salvo nas suas redes sociais para ler depois? Será que estamos apenas colecionando acervos e nos autossabotando em busca do conhecimento?

O aclamado sociólogo polonês Zygmunt Bauman apresentava aspectos diversos da modernidade, em que seu conceito fundamenta: “Vivemos tempos líquidos, nada é para durar”.

Toda essa quantidade de dados e informações fez com que a teoria do Small World fosse reduzida. Se você está se perguntando do que se trata a teoria em questão, irei explicar. É nada mais que uma teoria dos seis graus de separação. Acreditava-se que uma pessoa com um mínimo de relacionamento teria acesso a qualquer outra pessoa do mundo no máximo através do sexto contato.

Hoje, podemos afirmar que o Small World virou Little World, reduzindo para o terceiro grau a possibilidade de acesso a qualquer pessoa do planeta terra! O que acha de ativar as suas conexões e contatos para testar a teoria?

O próprio Linkedln, a maior rede social profissional do mundo, trabalha com a última conexão em terceiro grau, ou seja, é possível ter acesso a qualquer profissional (caso tenha o perfil cadastrado na rede) via amigo de amigo.

A abundância de informações nos trouxe até a Era da Aceleração. Isto é extremamente tóxico, provendo uma sociedade combalida e desnuda. Já parou para pensar como não temos mais a percepção de um dia com 24 horas? Como a vida passa, a cada ano, mais rápida? Não temos mais tempo para a família e amigos. Muitos sequer acompanham o crescimento dos filhos.

No passado, tínhamos a censura bloqueando o acesso às informações. Vale lembrar que, em alguns países, isso ainda existe. No século XXI, somos inundados com informações irrelevantes. Não sabemos mais em que prestar atenção, perdemos tempo investigando e debatendo questões secundárias.

Uma pessoa desbloqueia, em média, 180 vezes o smartphone em um só dia. Sabia disso?

Estamos o tempo todo conectado, respondendo Whatsapp, e-mail, mensagens e comentários nas redes sociais. Uma notícia, ou mesmo a informação de uma hora atrás, é notícia velha. A “exigência” de full conectividade chega a ser desumana e doentia. Será mesmo que é necessário estarmos atentos a praticamente tudo o que está acontecendo no mundo?

Quem nunca passou – passa – constantemente por situações do tipo: “Não é possível que não está sabendo do fato tal? Está todo mundo sabendo!”. Você se sente um peixe fora d’água, então vai pesquisar sobre o fato para, claro, não ficar de fora e não se sentir um verdadeiro ET. Temos que nos atentar, pois, a internet e as mídias sociais criam enormes bolhas, limitando a nossa visão periférica das coisas.

É impossível a inteligência não ficar cega de tanta informação!

Yuval Noah Harari, autor do best-seller Homo Deus – Uma breve história do amanhã, nos presenteia com o conceito de Tecno-humanismo. A tão falada Transformação Digital não pode ser banalizada como tenho visto por aí. Sou evangelizador e atuo conduzindo organizações para este novo mundo da economia 4.0.

Mas cuidado! Transformação Digital é muito mais que tecnologia, é mudança de Mindset (irei abordar o tema com profundidade em um próximo artigo).

Precisamos nos manter firmes contra os mais sofisticados algoritmos. Segundo Yuval, “perdermos cada vez mais a consciência da inteligência humana, o que faz com que a inteligência não consciente se desenvolva numa velocidade vertiginosa, obrigando nós, humanos, a fazer ativamente o upgrade de nossas mentes se quisermos permanecer no jogo”.

Faço constantemente o exercício de ir para o campo, desprender principalmente do smartphone, conectar com a natureza e as pessoas que ali estão presentes.

É saudável desconectarmos por alguns momentos. Precisamos absorver e digerir o que é mais relevante. Aliás, o que realmente é mais valioso, a inteligência ou a consciência?

Vamos refletir?

Até a próxima.

*Empreendedor, professor, mentor em programas de aceleração de negócios de impacto, consultor de marketing digital, inovação e transformação digital