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Cesar Vanucci *

“Vou fazer um samba cheio de inovações….” (Ary Barroso, anunciando a “gestação” da “Aquarela do Brasil”)

Foi numa noite chuvosa de 1939 que a “Aquarela do Brasil”, nosso segundo hino nacional, ganhou vida. Ary Barroso, ao piano, anunciou: “Vou fazer um samba cheio de inovações…” Menos de uma hora depois a música e a letra ficaram prontas. Um cunhado do compositor lançou objeção quanto a um verso: “Coqueiro que dá coco? Que queria que ele desse?”. Ary não deu bola pra observação.

Antes do final do ano, levada a disco na voz de Chico Alves, a “Aquarela” começou sua escalada de vertiginoso sucesso. Ouvindo-a em Belém do Pará, Walt Disney não conseguiu deixar de assobiá-la. Mandou-se para o Rio de Janeiro, à cata do compositor. Encantou-se com o personagem e suas composições. Acabou colocando várias delas em filmes levados às plateias do mundo. A fama internacional chegou até Barroso. A “Aquarela do Brasil” passou a ser a melodia brasileira mais interpretada nos diversos cantos deste planeta azul.

A arte de Ary, antes de ele se tornar celebridade, foi testada no teatro revista. A um só tempo em que atuava como pianista em orquestras cariocas de renome, ele cursava a faculdade de Direito. O poeta Olegário Mariano, da Academia Brasileira de Letras, e Luis Peixoto, outro nome de realce cultural, se interessaram pelo repertório do compositor mineiro. Num espetáculo encenado no Teatro Recreio, Rio de Janeiro, em 1932, Luis Peixoto tornou-se um dos raros parceiros de Ary. A letra de “Maria”, “cujo nome principia na palma de minha mão”, é de sua lavra.

Convidado por Walt Disney, Ary Barroso foi mostrar em Hollywood seus dons na criação musical. Respondeu pelas trilhas musicais de numerosos filmes. Enveredando pela política, elegeu-se vereador no Rio de Janeiro. Destacou-se pelo estilo polêmico e apaixonado na dicção de suas crenças. No rádio, foi “espíquer esportivo”, como se dizia na época. Foi também animador de programas de auditório com desfile de “calouros”. Como legislador, sinalizou presença na construção do Maracanã.

Defendia, com ardor incomum, as causas e coisas brasileiras, projetando na música o sentimento nacional. Lutou com todas as forças pelo reconhecimento do direito autoral. Foi conselheiro da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (Sbat), fundador e primeiro presidente da Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e Editores de Música, a Sbacem. Seus pares aclamaram-no, mais adiante, presidente de honra e conselheiro perpétuo da instituição.

Não aceitava, definitivamente, a desfiguração do samba. Tinha horror pelas tentativas de bolerizá-lo ou, como costumava dizer, de americanizá-lo. Um exemplo de sua maneira de ser: em 1952, criou “Risque”, clássico da MPB, um dos muitos que compõem seu inigualável repertório de criações. Na hora dos ensaios finais no estúdio, virou bicho ao perceber a disposição dos produtores de gravar a música em ritmo de bolero. Não permitiu que ela perdesse o toque original de samba-canção.

No dia nove de fevereiro de 1964, um domingo, em pleno carnaval, a Escola de Samba Império Serrano começou a se deslocar para a entrada triunfal na avenida (na época não existia ainda o sambódromo), cantando um samba-enredo no melhor estilo de exaltação consagrado na música de Barroso. Prestava-se ali uma homenagem ao compositor brasileiro mais conhecido no País e no exterior. De repente, chega a notícia atordoante: Ary Barroso acabara de falecer. Dias antes ele havia telefonado, do hospital, preso ao leito por doença hepática irreversível, para o amigo David Nasser, anunciando que sua morte estava próxima. “Mas como é que você sabe disso, Ary?” – “Eles estão voltando a tocar minhas músicas.” O jornalista esportivo José Maria Scassa, companheiro de rádio, resolveu visitá-lo e, surpreso, o encontrou cantando. “Estou cantando, Scassa, porque o silêncio da morte é fogo.”

No comentário anterior e no comentário ora estampado procuramos narrar alguns lances expressivos da história, bilionária em conteúdo humano e cultural, de um fabuloso artista. A história de Ary Barroso, um compositor que, navegando pela vida, andou ensinando que “o segredo principal (…) consiste em não forçar em nada a natureza”. Alguém que soube cantar como ninguém as belezas deste “Brasil lindo e trigueiro”. O seu, o nosso “Brasil brasileiro”.

* Jornalista ([email protected])