Cesar Vanucci*

“Minha/ casa/ minha/ vida/ lama/ tomou!”
(Andreia Donadon Leal, poeta aldravianista)
 
Volto a explicar. Inspirado no tsunami de lama que varreu do mapa, em 2015, o povoado de Bento Rodrigues, e produziu danos irreparáveis noutras paragens, um grupo de versejadores de escol, filiado à corrente literária aldravianista, deu forma poética, num livro de 300 páginas intitulado “Mineralamas”, ao inconformismo e à revolta brotados da alma popular. Lamentou o acontecido em Mariana e o lamento se ajusta, também, ao que ocorreu, três anos depois, em Brumadinho.

O grupo ergueu mais do que um protesto. Valeu-se da poesia, “repórter milenar dos feitos heroicos ou dos fracassos humanos”, conforme acentuado na publicação, para emitir um brado de alerta contra a predação desatinada, com consequências sempre catastróficas, dos recursos naturais colocados à disposição do ser humano para celebrar a vida. E não para espalhar morte e destruição.

A Aldravia nada mais é do que uma forma de expressão lírica sintética, escorada em apenas seis palavras. Despontou para a vida literária na primaz da manifestação poética mineira, Mariana, por obra, arte e espírito vanguardeiro de um senhor time de intelectuais criativos e talentosos. Conquistou adeptos em todas as partes do território continental brasileiro, alcançando, ao depois, plagas outras d’além mar.

Para apreciação do culto leitorado, selecionei mais aldravias divulgadas no já citado livro. Antes, porém, de repassá-las quero aqui reproduzir texto poético de um personagem genial da literatura brasileira que, pelo visto, também sabia das coisas que costumam rolar no pedaço da exploração minerária, quando esta se processa em termos de abominável vandalização.

Estou falando de Carlos Drummond de Andrade e de um poema seu de mais de trinta anos atrás: “O rio? /É doce./ A Vale?/ amarga./ Ai, antes fosse/ Mais leve a carga./ Entre estatais/ e multinacionais,/ quantos ais!/ A dívida interna./ A dívida externa. / A dívida eterna./ Quantas toneladas exportamos/ de ferro?/ Quantas lágrimas disfarçamos/ Sem berro?”
Chegam, agora, as aldravias. Gabriel Bicalho: “mineiro/ vira/ minério:/ cimenta/ seu/ cemitério”; “dinheiro/ a-paga/ essa/ praga/ da/ lama?”; lama/ não/ lava:/ leva/ a/ lavoura!”; “quanto/ vale/ um/ vale/ de/ lama?”. Else Dorotéa Lopes: “Nem/ casa/ de/ Deus/ lama/ perdoou.”; “reescrevam/ a/ geografia/ pois/ lama/ modificou”. Elizabeth Rennó: “nada/ mais/ restou/ além/ do/ telhado.”; “Na/ triste/ madrugada/ Mariana/ desacordada/ enlameada.”; “memórias/ apagadas/ águas/ contaminadas/ localidades/ inundadas.” Dilma Rocha de Athayde: “lama/ descendo/ apressada/ cidade/ morrendo/ soterrada.”. Cyro Mascarenhas Rodrigues: “mineradora/ insana/ haja/ lucro/ morte/lama.”; “vale/ estéril/ pela/ vale/ quanto/ vale?” Claydes Regina Ricardo Araújo: “silêncio/ dos/ pássaros/ clamor/ da/ natureza.”; “perseverança/ solidariedade/ doação/ assobio/ de/ luz.” Auxiliadora de Carvalho e Lago: “impiedade/ incapacidade/ irresponsabilidade/ gerando/ terrificante/ imagem.” Anício Claves: “lama/ abandona/ carro/ em/ telhado/ alheio.”; “mar/ de/ lama/ lama/ ao/ mar.” Joreani Adalmar Netto: “se/ todo/ mundo/ sabe/ ninguém/ viu?”; “semáforo/ diz/ adiante/ verde/ em/ extinção.” Luiz Carlos Abritta: ‘mortos/ choram/ pelos/ vivos/ à/ deriva.”; “aí!/ Mariana/ jazida/ de/ história/ mutilada!” Marcus Stoyanovith: “tragédia/ anunciada/ ganância/ confirmada/ Homem/ denunciado.”; “óxido/ vivo/ marreco/ morto/ homem/ solto.” Matusalém Dias de Moura: “jaz/ sob/ lama/ pedaço/ de/ Mariana.” “rio/ doce/ corre/ sujo/ de/ ganância.” Miriam Stella Blonski: “meio/ ambiente/ chora/ lágrimas/ de/ barro.”; “Natureza/ morta/ imagem/ petrificada/ de/ barro.” Luiz Fernando dos Santos: “pintaram/ nosso/ rio/ de/ outra/ cor.”; “lavam/ casas/ com/ lama/ altamente/ concentrada.” Luiz Poeta: “só/ rios/ secam…/ lágrimas/ nunca/ evaporam.”; “quantas/ lamas/ ainda/ teremos/ que/ chorar?”; “são/ marcos/ são/ marcas/ são/ corpos.” Maria Beatriz Del Peloso Ramos: “ganância/ econômica/ moldou/ lágrimas/ de/ barro.” Maria Lopes: “lamento/ tormento/ muito/ sofrimento/ pelo/ rompimento.” Nilze Monteiro: “abriu/ comporta/ inferno/ doce/ lembrança:/ passado.” J.B.Donadon-Leal: “sobre/ rejeitada/ lama/ sol/ resseca/ esperança.”; J.S.Ferreira: “um/ dia/ trem/ emudece/ cidade/ acorda.”
 
*  Jornalista ([email protected])