Diversos acontecimentos influenciaram o setor neste ano, entre eles está a greve dos caminhoneiros em maio, que gerou prejuízos aos produtores que já acumulavam custos elevados - Foto: Arquivo UFLA/Divulgação

Benjamin Salles Duarte*

Segundo os pesquisadores da Embrapa Eliseu Alves, Geraldo da Silva e Souza e Renner Marra, os três problemas da agricultura são a concentração da renda bruta, o excedente exportável e o consumo interno de alimentos. Exportar e sem comprometer o abastecimento interno dos atuais 208,4 milhões de brasileiros são avanços consolidados desde a 2ª metade da década de 1970, pois antes o Brasil era importador de alimentos.

Essas pesquisas de cenários são essenciais e indispensáveis para fundamentar o desempenho do agronegócio brasileiro e os desafios nele contidos numa perspectiva de tempo por consequência de centenas de variáveis econômicas e sociais e ligadas ao uso correto dos recursos naturais, que também se articulam nesse processo de reconhecida complexidade e dinâmica no território brasileiro, com 851 milhões de hectares, e diversos em suas múltiplas vocações agrossilvipastoris, mercados regionais, aptidões climáticas e talentos humanos!

Segundo o Censo Agropecuário de 2006, embora o de 2017 ainda esteja em fase de análise pelo IBGE, dos 4,4 milhões de estabelecimentos agropecuários recenseados apenas 27.036, com mais de 200 salários mínimos mensais de renda bruta, ou 0,62% do total de estabelecimentos, classe rica, responderam por 51,19% da distribuição da renda bruta, o que revela alta concentração em poucos estabelecimentos. Configura-se numa tendência no agronegócio brasileiro. Essa renda bruta mensal abrange a produção vendida, o autoconsumo e a indústria caseira, e o salário mínimo era de R$ 300,00 em 2006.

A classe considerada média, com 10 a 200 salários mínimos de renda bruta mensal, somou 472.702 estabelecimentos, 10,74% do total, e 35,46% da renda bruta. Segundo esses pesquisadores, juntando-se as classes rica e a média tem-se cerca de 500 mil estabelecimentos em 4,4 milhões, portanto, 11,4% do total, que geraram 86,65% de renda bruta em nível de propriedade rural em 2006. Os restantes, 3,9 milhões deles contribuíram apenas 13,35%. E nesse grupo, 2,9 milhões, 66,01% do total recenseado, produziram tão somente 3,27% da renda bruta de 2006.

Assim posto, do lado da abundância estão as classes rica e média, e da pobreza rural, as classes pobres e muitos pobres. As imperfeições de mercado não superadas, sem subestimar outras variáveis, continuam discriminando os pobres e muitos pobres nos cenários rurais, segundo essa pesquisa da Embrapa. Noutra pesquisa (USP-Esalq) essas duas classes de pobres rurais, em 2006, 98% nunca receberam nenhuma assistência técnica pública ou privada, estando concentradas no Nordeste brasileiro!

Além disso, em 2006 os ganhos de produção e produtividade na agricultura brasileira foram devidos em 68% à adoção de tecnologias; 22% ao trabalho qualificado, e apenas 10% ao fator terra, sendo que no Censo Agropecuário de 1995/96 a tecnologia explica 50,6%. Portanto, o fator terra perde a importância e domina a tecnologia, que esclarece o crescimento da produção.

Por outro lado, quando se importa significa que o Brasil usa o excedente dos países exportadores em benefício de seus consumidores e em investimentos. O excedente está na forma de bens, em empréstimos para aplicação no território nacional, pagar dívidas, financiar importações e exportações.

Afinal de contas, as importações são pagas com exportações e é bom que reste um saldo na forma de divisas na dinâmica da balança comercial para 190 países e sem comprometer o abastecimento interno, o que poderia prejudicar o governo nos seus esforços de recuperar a economia brasileira, claudicante!

O saldo sendo confortável, as expectativas favorecem o Brasil em termos de taxas de juros e teto para novos empréstimos. Entre 1997 e 2007, o superávit nas exportações do agronegócio brasileiro foi de US$ 1,1 trilhão. Assim, exige exportar e sem exportações não se obtém nenhum sucesso fundamentado em políticas agrícolas e florestais, e sem estímulos para quem planta e cria, abastece e exporta.

É preciso também ficar atento às tecnologias dos softwares, disponíveis no mercado, e aos serviços de TI na gestão para resultados econômicos, sociais e ambientais num mundo globalizante, apesar de alguns acidentes de percurso como as disputas comerciais entre os dois gigantes da economia EUA e a China, que somam um PIB de U$ 34,5 trilhões (FMI).

Noutro ângulo, no foco da concentração da produção agrícola, somente o Mato Grosso deve colher 64,9 milhões de toneladas de grãos (27,8%) na safra brasileira de 2018/2019 avaliada em 233,7 milhões de toneladas (Conab-6º Levantamento).

Em Minas Gerais, estima-se que atualmente 50% da produção de café se concentram no Sul de Minas (Emater-MG) e na safra de 2017 apenas os 20 primeiros municípios, num total de 853 existentes no território mineiro, ofertaram 6,94 milhões de toneladas de grãos ou 51% da colheita de 13,6 milhões de toneladas, liderança de Unaí, com 965,63 mil toneladas, e baseando-se nos dados da Conab/Seapa.

Além disso, o maior polo mineiro de suinocultura empresarial agrega os municípios polarizados por Ponte Nova (Zona da Mata mineira). Em 2018, foram abatidos 44,2 milhões de suínos no Brasil, mais 3,4% em relação a 2017, sendo que Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul respondem por 65,8% do abate nacional (IBGE). A oferta regular de grãos, cereais e oleaginosas é indispensável também à produção de leite, carnes e ovos!

Mercados atraentes interno e externo, pesquisa agropecuária e florestal de ponta, Minas lidera o reflorestamento, tecnologias, políticas públicas, assistência técnica, extensão rural, e adoção de inovações em nível de campo, que conquistaram também os cerrados mineiros em escala comercial marcadamente desde a década de 1970 num esforço pioneiro entre os governos federal e estadual. Entretanto, se não houver rentabilidade para quem planta e cria, a tendência é descartar a inovação numa perspectiva de tempo.

*Engenheiro agrônomo