Casa de Luciano Bivar e sede do partido de Bolsonaro foram alvo da operação da Polícia Federal - Crédito: Marcelo Camargo/ABr

Brasília – Em busca de uma solução jurídica, o presidente Jair Bolsonaro pretende utilizar a operação de ontem da Polícia Federal em endereços ligados ao presidente nacional do PSL, Luciano Bivar, como argumento de que há justa causa para que deputados aliados deixem o partido sem perder o mandato.

O laranjal do PSL, como ficou conhecido, foi revelado pela Folha de S.Paulo em uma série de publicações desde o início do ano. A PF abriu investigações após as reportagens, e o esquema deu início a uma crise na legenda e tem sido um dos elementos de desgaste entre o grupo de Bivar e o de Jair Bolsonaro, que também estuda como deixar o partido.

Apesar desse discurso, Bolsonaro mantém no cargo o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, indiciado pela PF e denunciado pelo Ministério Público por três crimes no esquema dos laranjas.

Como definiram auxiliares presidenciais, a investigação contra Bivar se tornou uma espécie de “bala de prata” que o presidente precisava para reforçar a crítica de que falta transparência da cúpula nacional da sigla na administração dos recursos do fundo partidário, o que, segundo assessores palacianos, deve ser explorado pela equipe jurídica de Bolsonaro.

Na mesma linha, deputados bolsonaristas comemoraram o timing da operação. Eles dizem que a deflagração enfraquece o grupo de Bivar, que se reuniria ontempara decidir sobre a expulsão de membros do partido. Nas palavras de um parlamentar, o fato de o atingido ser Bivar avaliza a tese da justa causa.

Na semana passada, o presidente informou a advogados e deputados, que se reuniram com ele no Palácio do Planalto, que havia decidido deixar o PSL. Ele ressaltou, no entanto, que só oficializaria a decisão caso conseguisse viabilizar a migração para outra sigla de parlamentares bolsonaristas.

Desde então, a defesa de Bolsonaro tem avaliado e buscado argumentos que possam ser utilizados para encampar a tese. Uma ala da sigla defende desde a semana passada que o escândalo das candidaturas de laranjas do PSL seja apontado como justa causa para uma desfiliação.

A operação de ontem faz parte, justamente, da investigação do esquema das candidaturas de laranja. Os mandados foram autorizados pelo Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco, atendendo pedidos da Polícia Federal e do Ministério Público. A casa de Bivar no Recife e a sede do partido estão entre os alvos.

“A operação fortalece nosso pedido por transparência no uso de recursos público e na democracia das decisões”, disse a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), aliada do presidente.

O líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo (PSL-GO), foi na mesma linha. “Eu acho que reforça a tese da importância da transparência. Era melhor ter aberto as contas sem que a Polícia Federal tivesse que ir lá buscar.”

“Lamentável” – Já o líder do PSL no Senado, Major Olimpio (SP), afirmou que, se os deputados do partido ligados a Bolsonaro usarem a operação como justificativa para deixar a sigla, eles “cuspirão no prato em que comeram”.

“Eu não acho que seja pertinente. Isso se chama cuspir no prato que comeu. Eu acho lamentável”, declarou. (Folhapress)

Ação da PF acontece em meio à disputa no partido

Brasília – A operação da Polícia Federal aconteceu diante de um clima de desconfiança entre aliados de Bivar de que Bolsonaro poderia promover retaliação ao presidente do PSL.

Antes de reunião ministerial, na manhã de ontem, o ministro da Justiça, Sergio Moro, foi indagado, mas não quis comentar a operação. Na semana passada, ele e o diretor-geral da Polícia Federal, Mauricio Valeixo, se reuniram com o presidente em audiência reservada.

Nos últimos dias, desde que o descontentamento de Bolsonaro com o PSL veio à tona, pessoas próximas ao deputado passaram a conjecturar que se repetisse a história de Gustavo Bebianno, ex-presidente da legenda e aliado de primeira ordem do presidente da República durante a campanha.

Em fevereiro, diante do desgaste de relação com Bebianno, Bolsonaro publicou áudios de conversas entre eles. A operação da Polícia Federal, embora não seja uma ação do Palácio do Planalto, eleva o clima de desconfiança entre as partes. Em nota, a defesa de Bivar classificou o mandado de busca e apreensão como “fora de contexto”.

Em entrevista à Rádio Gaúcha, o ex-ministro do TSE  , Admar Gonzaga, consultor jurídico do presidente, disse que a operação vem ocorrendo há muito tempo e que não tem “nenhuma relação” com o processo de saída de Bolsonaro.

“Foi uma coincidência, mas a Justiça também está atenta. O Brasil continua trabalhando, cada qual em seu setor, e eles vão ter de responder pelo que fizeram ou provar que não fizeram”, disse.

Ele observou, no entanto, que se for provado que a atual direção nacional do partido tem relação com as irregularidades em Pernambuco, o fato será utilizado. Ele ponderou, porém, que a intenção deles é definir o processo de saída de forma célere e que a investigação da PF ainda deve ter mais desdobramentos.  (Folhapress)