Crédito: Fernando Frazão/ABr

Tilden Santiago *

É inegável que a avaliação negativa de Bolsonaro cresceu na opinião pública. É o que demonstrou pesquisa da XP Investimentos em parceria com o Instituto Ipespe, amplamente divulgada no início da semana. O mesmo instituto mostrou que 62% dos entrevistados são contra a indicação de Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), como embaixador do Brasil nos EUA.

Desde que assumiu o governo, Bolsonaro leva os leitores do Brasil inteiro a se perguntar qual será a piada ou brincadeirinha de mau gosto, ou expressão chula, ou conversa fiada de hoje na boca do presidente. Além das expressões chulas e pouco espirituosas, ele tem o dom de sempre estabelecer polêmicas, raramente em cima de aspectos essenciais do Brasil e de sua política.

Insiste em repetir asneiras sobre o desmatamento na Amazônia, em chamar os nordestinos de Paraíba. Sem mais nem menos, se põe a falar de maneira inconveniente, desrespeitosa, ofensiva e desaforada do pai do presidente da OAB – ex-líder estudantil da AP (Ação Popular), Fernando Santa Cruz, desaparecido do Estado em 1974.

A nau da pátria está à deriva! Ninguém sabe com clareza para onde caminhamos, o que nos espera.  Em conversa com com Pedro Bial, na segunda-feira (12), os economistas e cientistas políticos Roberto Mangabeira Unger (Ciro Gomes) e Eduardo Giannetti (Marina Silva) analisaram com sabedoria o momento político, econômico e social do Brasil, mostrando os graves erros que vêm cometendo, as raízes do movimento de retrocesso histórico que o atual governo endossa, como ultradireita, obediente a Donald Trump e a uma tendência malévola que os refugiados da Europa, os assalariados, os excluídos e os pobres do mundo inteiro, os que passam fome inclusive no Brasil, sentem na pele.

Pena que programas dessa qualidade vão ao ar altas horas na TV. O que acontece também semanalmente com Seginho Groisman que sabe animar convidados e auditório na fomentação de energia positiva junto ao público e aos telespectadores, sempre numa linha de ressaltar o humanismo com H maiúsculo.

Para Unger e Giannetti, o Brasil tem amplas possibilidades crescimento e desenvolvimento, indiferentes às necessidades, esperanças, aspirações e utopias, sobretudo dos mais pobres – mas também dos eleitos do empresariado, dos intelectuais, cientistas e artistas.

É muito fácil participar de uma Marcha para Jesus com gente superconvencida, e no final querer enganar católicos, dando uma entradinha na Catedral de Brasília.

Em vão, o colega e amigo jornalista Ricardo Noblat continuará a suplicar ao presidente do Supremo: “Conta tudo, Toffoli!”. Quem leu o seu blog ou a revista Veja, sabe do que estamos falando. Nada mais grave do que as revelações do ministro Toffoli. Entre abril e maio últimos, houve uma tentativa de golpe para depor o presidente Bolsonaro. Mas que ele (Toffoli) se intrometeu e, junto com outros nomes de peso da República, conseguiu abortar. Noblat tem razão! O presidente do STF tem obrigação de dar nome aos bois.

Toffoli foi um jovem assessor da bancada do PT quando esse escriba foi deputado federal. Brilhante, inteligente e sagaz, me ajudou a escrever e a aprovar na Câmara e no Senado, três projetos de lei:

1) aumento da punição de político cassado quando Itamar era o presidente;

2) democratização da TV a Cabo no governo FHC;

3) Lei da Guarda Compartilhada em defesa dos filhos de pais separados na gestão de Lula. Zé Dirceu só indicava gente inteligente para assessorar nossa bancada em Brasília. Ainda bem!

Mas nunca o Toffoli iria revelar o nome do general que fez consultas para saber se o Exército poderia ir às ruas em defesa da lei e da ordem, mesmo sem autorização de um dos poderes da República. E a revelar também os parlamentares, homens de negócios, industriais e banqueiros, que se envolveram na ideia do complô. Tudo indica que houve um pacto entre os Três Poderes sugerido por Toffoli à época.

Foi a vitória da sensatez, justificou o presidente do STF. Toffoli mudou, você muda leitor, o jornalista Noblat muda, esse escriba muda, todos mudamos. O problema é que de sensatez em sensatez de todos nós, o Brasil continua sonhando com uma profunda transformação de todos e o povo sabe que é melhor e mais correto “lutar pela transformação”, sem impeachment. Aprendeu com Bolsonaro, Temer, Dilma e Lula, que não resolve tirar cicrano e botar beltrano.

A política é mais complexa, sobretudo, para quem pretende trabalhar no cotidiano da vida contra a desigualdade, o desemprego, o autoritarismo, a corrupção, os preconceitos, e com foco na democracia que a Grécia nos ensinou – baseada no mito da eleição. Como “panaceia para todos os males da sociedade”. A regra é a paciência e a tolerância até o fim com quem foi eleito nas urnas. O impeachment é exceção que não combina com a sensatez de Toffoli ou de você, caro leitor.

*Jornalista, embaixador e filósofo