José Eloy dos Santos Cardoso*

“Se está tudo ruim, pior não fica”. Esta foi uma das célebres frases ditas algum tempo atrás pelo deputado federal Tiririca. Ele próprio havia dito que estava decepcionado com a política e não voltaria a se candidatar. Mudou de ideia. Voltou a ser candidato, conseguindo se reeleger com mais de 400 mil votos, obtendo a quarta colocação entre os mais votados. Não conseguiu ficar longe da política e com razão.

Estimulado pelos altos salários e várias vantagens do cargo que lhe permitia também exercer a sua profissão de palhaço, que lhe rende dinheiro extra, foi reeleito. Lembro-me muito bem do ex-deputado federal por algumas legislaturas Último de Carvalho, que pertenceu ao ex-Partido Social Democrático (PSD). Honestíssimo que era, uma vez afirmou para alguns amigos próximos: “Se eu fosse aceitar as propinas que me eram oferecidas, poderia enriquecer até a minha terceira geração”.

Quanto mais ignorantes e dependentes das ações sociais do Estado, seus eleitores permanecem fiéis e os políticos felizes por fazer da política um meio de vida eficaz. É um paradoxo na democracia brasileira, quando alguns eleitores recebem uma pequena bolsa-família, mas os políticos através de obras desnecessárias ou superfaturadas retiram das propinas incontáveis valores às custas de um populismo que dá dinheiro para aqueles que vivem da política e dão pão e circo para a população. Como expressou o empresário Stefan Salej em artigo publicado no DIÁRIO DO COMÉRCIO (9/10), “o político vende ao eleitor algodão-doce, mas na hora da comida aquilo se transforma em jaca”. Mais de 60% dos atuais deputados federais se reelegeram e continuarão, com certeza, aplicando o atual modelo político que produz ódio crescente entre as classes sociais. Nem Deus, que falamos que é brasileiro, será capaz de resolver esses imbróglios criados pelo “toma lá, dá cá”.

O povo brasileiro, que possui entre sua população mais de 25 milhões de pessoas que não possuem emprego, ou estão subempregados, como aqueles que se formaram, por exemplo, em engenharia civil, mas, para sustentar sua família, têm que dirigir um veículo que se transforma em um “uber”, ou têm que enfrentar outras profissões com baixíssima remuneração. Muitos daqueles que são inteligentes e capazes, são tentados a se mudar para outros países. O Brasil tem mais de 10 milhões de analfabetos funcionais, que não sabem nem ler um pequeno livro e interpretar o que leu, ou ainda não são capazes de fazer com exatidão as quatro operações aritméticas fundamentais, vivem em locais carentes de saneamento básico, moram em boa parte em favelas, ficam ouvindo parlamentares falar de saúde, educação e empregos e, no íntimo, ficam até felizes de serem manipulados por políticos que proporcionam uma bolsa-família, mas nem têm ideia de que esse benefício volta milhares de vezes para aquela pessoa em quem votaram. Quanto mais ignorantes e dependentes, melhor para uma boa parte deles. Pobre Brasil.

Como ficou claro no editorial do DC publicado dia 9 de outubro último, “o abismo não é a alternativa”. Falar em vencedores das eleições, agora, pode-se revelar mais uma grande desilusão. Líderes classistas e empresários, apesar da bolsa de valores subir e do valor do dólar declinar, estão de certa forma preocupados e com razão. Defendem mudanças, reclamam protagonismo, recomendam a seus pares que se levantem dos sofás onde, comodamente, julgam estar discutindo e influindo no futuro brasileiro. Precisamos quebrar a ideia de que o País está desunido, dando por consumado o conflito que divide a população.

Vamos tomar de volta os espaços ocupados pelos maus políticos e pela burocracia que está à sua volta. Esta deve ser a regra que deve tentar tirar o Brasil do atual abismo.

* Economista, professor e jornalista