(Reprodução/Tomaz Silva/Agência Brasil)

Este articulista já escreveu e publicou em jornais e na Revista da Academia Mineira de Letras dezenas de textos sobre arte e arte contemporânea. Desta última, em geral, falei mal por que a esmagadora maioria das pessoas que se apresentam como artistas desse segmento desconhecem o que são cores primárias, não sabem misturá-las e nem têm ideia do que seja ponto de fuga numa superfície bidimensional e ainda desconhecem a técnica do desenho e não querem saber o que é uma composição equilibrada. Imaginam que tudo isso está superado. O resultado do que fazem é risível, mas há quem acredita neles e compram suas peças imaginando que, no futuro, eles serão reconhecidos e valorizados como um novo Guignard. Há uma ínfima minoria no meio desses autores que conhece aquelas regras e tem talento de sobra pra fazer coisas belas. São uns quatro ou cinco autores que ficarão na história na Terra de Santa Cruz

Nada contra a evolução da arte que mudou radicalmente a partir de 1860, com Eduard Manet e o impressionismo, Cézanne; Braque e Picasso com o cubismo pintando sem a perspectiva, o expressionismo alemão e os outros ismos que vieram depois e ninguém mais sabe aonde vai parar, tamanho são os absurdos pictóricos nas galerias e museus.

Se o que leitor já viu e se surpreendeu com coisas dessa natureza deve segurar seu coração para coisas que vou contar por que arte hoje é tudo que o sujeito chamar de arte e o comprador acreditar que é. E concordar em pagar caro por ela. Arte hoje também não é mais nada. Qualquer borrão horroroso é vendido caro, desde que haja um autógrafo de alguém conhecido pelo mercado e outro alguém garanta valorização financeira da peça.

Como se não bastasse as loucuras que temos visto, na semana passada surgiu a arte autodestrutiva. Um certo Banksy, pseudônimo de pintor de streetart e cuja identidade o mercado desconhece, há alguns anos pintou numa parede enorme na Great Eastern Streetem Londres, uma menina em preto e branco tentando pegar o balão vermelho que lhe escapava. O quadro é adorável e fez sucesso na Inglaterra. Seu criador resolveu pintar algumas telas da mesma cena, mas de tamanho reduzido e colocou uma delas em leilão na prestigiada casa Sotheby´s, em Londres. Ela foi vendida por um milhão de libras. Exagero do preço à parte, o artista surpreendeu a casa de leilão, o leiloeiro e todo o público presente, ligando um triturador por controle remoto que, devagar e para perplexidade de todos, foi destruindo metade do quadro. O artista alega que “a destruição pode também ser um ato criativo”, assertiva que dá vontade de sentar no meio da sala da Sotheby´s e chorar durante horas. Quando li a notícia, imaginei que ele quisesse contestar os altos preços das obras de arte no mercado europeu e que tudo afinal fosse uma gozação. Cara demais, mas uma gozação.

Não se sabe se o cliente pagou por algo destruído, se o leiloeiro corou de vergonha ou se a Sotheby´s tem alguma explicação para esse grotesco exemplo de arte e se a Casa abriu mão de sua comissão, por que, afinal, a peça foi vendida ou, ainda, se o artista vai repor a obra.

O pior deste evento é que, além de um golpe de publicidade digna de um Franz Anton Mesmer, o artista, a galeria, o leiloeiro e o público acreditam que as próximas cópias leiloadas do mesmo quadro dobrarão de valor. Resta saber se o triturador e a nefasta frase virão juntos em troca de um cheque de 2 milhões de libras.

* Psicanalista e crítico de arte