CRÉDITO: ARQUIVO DC

Ana Elisa Bacha Lamounier *

O Brasil enfrenta a pior crise econômica de sua história. A queda de quase 7% no PIB observada durante a recessão de 2015 e 2016 foi seguida por dois anos de crescimento pífio, totalizando apenas 2,2%. Ou seja, ainda há quase 5% de perda a ser recuperada. Pior ainda, mesmo com um novo governo, e um ministro da Economia de formação liberal, as estimativas para os próximos dois anos são decepcionantes, indicando que entraves poderosos continuam a condicionar o desempenho da economia brasileira. Estaremos condenados ao fracasso? O sonho da prosperidade perde-se outra vez no horizonte?

O produto de uma economia é a soma dos gastos de consumo privado e público, dos investimentos e das exportações líquidas, isto é, da demanda externa. No nosso caso, esses canais para o crescimento parecem entupidos.

O gasto de consumo privado está afetado pela elevada taxa de desemprego, hoje superior a 12%. A massa de rendimento real da economia ainda está cerca de 7% abaixo do registrado antes do início da crise. Além disso, a maior parte dos empregos criados nos últimos trimestres é informal, gerando mais insegurança. Ainda, o nível de endividamento das famílias é elevado, reduzindo a força desse canal de expansão. Todos esses fatores limitam o desejo de consumir das famílias. Do lado dos gastos do governo, o efeito é contracionista, pois há a necessidade de se colocar as contas em dia.

O gigantesco déficit gerado ao longo dos últimos anos produziu um significativo aumento da dívida do setor público e não permite o uso da política fiscal para estimular a economia. Além disso, a deterioração fiscal produziu um aumento no risco-país e nos levou a perder nosso rating de bom pagador. Do lado dos investimentos, há pouca perspectiva de que possa crescer no curto e médio prazo, pois a economia registra uma capacidade ociosa significativa, ou seja, a produção pode crescer sem a necessidade de novos aportes. Por fim, resta a demanda externa, cujos sinais também não são alvissareiros: a economia global está em desaceleração e os preços das commodities estão em queda. Além disso, a guerra comercial desencadeada pelos Estados Unidos contra a China é outro elemento a produzir tensão nos mercados globais, o que drena consumo e investimento e, consequentemente, crescimento econômico.

Durante muito tempo nos acostumamos com a expressão “década perdida” quando nos referíamos aos anos 1980. De fato, depois de dobrar de tamanho durante os anos 1970, a economia cresceu menos de 17% na década seguinte. Na atual década, o crescimento acumulado entre 2011 e 2018 é de 4,5%. Se considerarmos que em 2019 o crescimento será de 1,1% e em 2020 de 2%, como indica a maioria das projeções, teremos acumulado nestes dez anos um PIB 7,8% maior, tornando esta a verdadeira década perdida. Seria o pior desempenho da economia dos últimos 60 anos. Como a população deve crescer nesse mesmo período cerca de 0,9% ao ano, ou pouco mais de 9% em dez anos, a renda per capita terá perdido em 10 anos cerca de 1,5% de seu valor. O Brasil ficou ainda mais pobre.

Poderíamos romper esse círculo vicioso se o governo fizesse a coisa certa, mas o problema principal hoje é a total desconfiança dos agentes econômicos em relação aos rumos que serão tomados. O novo governo não inspira confiança e apesar de uma área econômica enfaticamente liberal o resto ainda parece viver sob o manto do patrimonialismo. A pauta continua sendo dominada mais pela ideologia do que pelos interesses do País. Faltam habilidade e qualidade na gestão política e o presidente não parece disposto a se dedicar às negociações. Tudo isso torna o futuro incerto.

A economia costuma funcionar eficientemente na base de duas palavras: previsibilidade e credibilidade. A primeira diz respeito à estabilidade das regras do jogo, das leis, dos contratos e das relações estabelecidas. Em outras palavras, propriedades devem ser respeitadas, contratos cumpridos, as leis seguidas e as instituições devem zelar para que tudo funcione de maneira eficiente. A segunda palavra diz respeito às ações do governo: políticas econômicas não devem privilegiar setores ou apenas alguns, mas devem ser equalizadas para todos. As contas do governo devem estar saudáveis do ponto de vista da macroeconomia, a inflação deve estar sempre contida e os investimentos públicos devem garantir as necessidades básicas da população e infraestrutura para os agentes econômicos. Com exceção da inflação, que está sob controle, nos falta todo o resto.

*Mestre em engenharia de produção pela USP, CEO e sócio-fundadora da Sparks Capital, cofundadora do Ciclo de Estudos de Política, Economia e História