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ALEXANDRE HORÁCIO

Em tempos de grave retrocesso político, social e econômico em todo o mundo, inclusive no Brasil, que ressuscita a paranoia anticomunista e a caça às bruxas ideológica, lembrando o macarthismo do auge da Guerra Fria nos anos 50 e 60 nos Estados Unidos, o filme britânico “A Espiã Vermelha”, dirigido por Trevor Nunn e estrelado por Judi Dench e Sophie Cookson (foto), aguça a reflexão do espectador sobre as motivações pessoais que levaram uma então promissora cientista inglesa durante a Segunda Guerra Mundial a passar segredos sobre o projeto da bomba nuclear para a KGB, serviço secreto da extinta União Soviética.

Baseado em uma história verídica e narrado em flashback, o filme começa com a detenção de Joan Stanley aos 80 anos, brilhantemente interpretada pela veteraníssima Judi Dench, pela polícia inglesa, sob acusação de espionagem a favor dos russos realizada há mais de 50 anos. Intercalando presente e passado, a película reconstrói a trajetória da jovem estudante de física de Cambridge (Sophie Cookson, em bela atuação) que é convidada a trabalhar em um projeto confidencial do governo inglês para desenvolver a bomba atômica, ao mesmo tempo em que se envolve amorosamente com um jovem judeu russo, que fugiu primeiro da perseguição antissemita de Stalin e depois da repressão nazista do mesmo teor de Hitler para a Inglaterra, para, mesmo assim, se envolver com a KGB.

Longe do excelente cinema político dos anos 60 e 70, que tinha entre os expoentes os diretores italianos Ettore Scola e Bernardo Bertolucci e o grego Costa-Gavras, cujo vigor deixou ao menos um sucessor, o inglês Ken Loach, de “Terra e Liberdade”, “A Espião Russa” retoma, mesmo de forma discreta e sem o devido aprofundamento, a abordagem de questões políticas relevantes na sétima arte.

A personagem central nega que fosse comunista e tivesse alguma ligação com a União Soviética, como de fato não tinha, e procura justificar as suas atividades de espionagem com um argumento inquestionável. Ela alega que passou segredos da bomba nuclear aos russos em busca de um equilíbrio atômico entre Estados Unidos, o aliado histórico da Inglaterra que explodiu duas bombas no Japão ao fim da Segunda Guerra Mundial, e a União Soviética, e assim evitar a destruição imensurável de uma guerra nuclear. Assim, a paz entre as potências inimigas foi garantida até hoje.

Em cartaz no Ponteio e Belas Artes, o filme tem o mérito de não tomar partido de nenhum dos dois extremos e, colocando em segundo plano os discursos ideológicos de esquerda e direita, busca mostrar as motivações românticas e idealistas de uma jovem que vive o dilema de agir de acordo com sua consciência ou manter o sigilo ético em torno de um projeto de segurança nacional. Sem julgar a personagem, “A Espiã Vermelha” deixa as conclusões para o espectador tirar.