Crédito: Valter Campanato/Agência Brasil

Tilden Santiago *

É Corpus Christi! Procissões, tapetes de flores pelas ruas históricas, banda União XV de Novembro, arcebispo com capa da asperges de Imperador Romano, anjinhos humanos em volta do pálio, opas coloridas das Irmandades, os “gaveteiros” entupindo ruas e becos de Mariana! Foi o que aprendi sobre Corpus Christi, na juventude, na Roma de Minas, com seus cônegos e monsenhores.

Uma festa carinhosa e curiosa que obnubilava a essência mais profunda do mistério do Pão e do Vinho revelado por Yeshua de Nazaré na quinta-feira santa. Nada contra os “penduricalhos” do Corpus Christi que a piedade popular e o mundo eclesiástico penduraram na passagem da procissão. Mas o homem e a mulher aspiram por algo mais consistente espiritualmente como dizia Paulo de Tarso.

Para ir além dos “penduricalhos” seculares, o verdadeiro seguidor de Yeshua é convidado a reler os sinópticos e interiorizar o sentido mais profundo do Corpus Christi: Mateus 26,17-29; Marcos 14,12-26; Lucas 22,1-39. Também João Evangelista que não foi tão factual como os outros três, o último apóstolo a ser martirizado e que soube acrescentar temas em sintonia com a eucaristia: o lava-pés, o mandamento do amor, o poder como serviço (junto com Lucas), o sacerdócio. Temas que foram abordados pelo Mestre naquela mesma tarde (ao cair da tarde entrando pela noite), naquele ágape celebrado, num contexto de despedida, de alegria e tristeza, de luzes e sombras pela partida e pela agonia anunciada para pouco, no Getsêmani do Monte das Oliveiras. Sobretudo contexto de “conspiração” contra o Filho do Homem, Messias e Profeta, a ser crucificado entre dois criminosos políticos, zelotas revolucionários, que repudiavam politicamente e militarmente o Império Romano dominador.

O momento alto do ágape (amor), da nova Páscoa, é quando Ele toma o Pão, abençoa, da graças, parte e distribui: “Isto é o meu corpo! E tomando o cálice – “Isto é o meu sangue”. E só voltarão a provar do fruto da videira, juntos, um vinho novo, no Reino do Pai.

É bem verdade que o Pão e o Vinho consagrados se transformam no corpo e no sangue de Yeshua. Não há nenhuma mágica. Mas é também verdade que o gesto e as palavras de Yeshua não são apenas afirmação  de sua presença sacramental, mas convite à multiplicação dos pães, à lembrança da libertação do Egito, sendo ele o novo cordeiro pascal de seu povo judeu vocacionado a comungar com os gentios.

Seu gesto e palavras manifestam também, durante o ágape, o sentido profundo de sua vida e morte, como dom gratuito, exemplo para seus seguidores. Entrega de si mesmo aos outros, opondo-se a uma sociedade em que as pessoas só vivem para si mesmas e para seus próprios interesses – tanto no modo de produção capitalista como do socialismo real.

O ágape do amor aconteceu no contexto da conspiração covarde dos anciãos, sacerdotes e chefes do povo, sem falar no farisaísmo de Pilatos. Terminado o ágape, cantaram os salmos, atravessaram o Vale do Cedrom antes de vivenciarem a agonia da morte, sempre presente nos humanos antes de morrer.

*Jornalista, embaixador e anglicano