Créditos: Sérgio Mourão/Setes

ROGÉRIO FARIA TAVARES*

Em acelerada transformação, a comunidade humana formada pelos brasileiros é fenômeno complexo, cujo estudo requer a inteligência de pensadores dispostos ao exercício do raciocínio sofisticado, que se recusem a repetir lugares comuns ou obviedades.

Árduo, mas estimulante, tal estudo certamente se beneficiará muito se recorrer à perspectiva histórica, elemento capaz de contextualizar, no tempo e no espaço, as informações fundamentais para a compreensão do momento presente e a imaginação do amanhã.

Será igualmente proveitoso o insumo da ousadia, atitude indispensável à exploração de novos caminhos e possibilidades de análise. A recompensa talvez surja do encontro com visões inéditas e insuspeitadas, com encantamentos inesperados e, sobretudo, do contentamento pela aventura empreendida.

Tais sentimentos serão mais intensos, com certeza, se o estudioso se debruçar especialmente sobre o campo da cultura, terra fértil em alegria, cores e movimentos. Impactado pelas tensões que acompanharam seu processo de formação nacional, marcado por uma colonização predatória, por massacres indígenas e por três séculos de escravidão, o Brasil foi capaz, mesmo assim, de erguer importante edifício cultural, no âmbito do qual abrigou as mais variadas e interessantes manifestações do modo de ser e de viver de sua gente.

Habitado por povo mestiço e resistente, vítima de um dos mais assombrosos quadros de desigualdade social de que se tem notícia, ainda assim foi capaz de gerar uma arte potente o bastante para encantar o planeta pela sua voz, seus tons e matizes. Seus criadores mais livres e independentes foram corajosos o suficiente para produzir o original e o imprevisto, levando o mundo todo a encantar-se com a força e a beleza de sua presença.

Não é diferente a cultura forjada em Minas Gerais, território que, em 2020, completa 300 anos de institucionalização político-administrativa. Tesouro mais valioso da Coroa Portuguesa, o Estado viveu o esplendor do ciclo do ouro e o apogeu do Barroco, legando à humanidade o rico acervo que até hoje atrai milhares de turistas a cidades como Mariana, Ouro Preto e Congonhas do Campo. Sede da Inconfidência, inscreveu a Liberdade em sua bandeira, sintonizando-se, cosmopolita, com o clamor mundial pela emancipação dos direitos.

Se os árcades, naquela época, cantaram a natureza e o amor, já no século 20 os modernistas releram a história e propuseram outras formas de avaliar e de representar a realidade, como na literatura inaugurada pelo grupo a que pertenciam, entre outros, Drummond, Pedro Nava, Emílio Moura e João Alphonsus. Atentas e sensíveis, as gerações seguintes atualizaram e enriqueceram a posição de Minas no cenário cultural brasileiro, confirmando o talento e o vigor de seus artistas.

Atualmente, é extensa a lista dos mineiros que se destacam pelo brilho de sua performance. Seria injusto citar, aqui, alguns poucos. O que importa sublinhar é a ampliação impressionante do número de pessoas e de grupos que fazem da economia criativa, na contemporaneidade, a sua principal atividade.

Essa pujança demonstra como, nos dias de hoje, é dinâmico e inesgotável o processo de criação e expansão do repertório cultural, sobretudo em Minas. Ele não está apenas no que é físico e tangível, mas também no que é imaterial e parece, à primeira vista, abstrato, de difícil apreensão. Não se limita, tampouco, a favorecer as novidades. É, também, lugar de acolhimento da incrível diversidade de que se compõe o mosaico da cultura. E é, finalmente, seara igualmente vasta e propícia à preservação e ao cultivo do que se chama de tradição e de patrimônio. Como prescindir deles?

  • Jornalista. Da Academia Mineira de Letras