Rio de Janeiro – Um grupo de acionistas minoritários críticos à gestão da Vale pediu à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) a abertura de inquérito administrativo para investigar se a mineradora “tem omitido informações acerca dos riscos socioambientais de seus empreendimentos no Pará, Maranhão e Minas Gerais”.

No documento, protocolado junto ao regulador de mercado na terça-feira, dias após o rompimento fatal da barragem da Mina Córrego do Feijão em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), o grupo de acionistas afirma que a prática poderia configurar manipulação artificial dos preços das ações da mineradora, “incidindo em prática não equitativa no mercado”.

“Todos que assinam a denúncia são acionistas críticos, que questionam, que vão há sete anos nas assembleias de acionistas e questionam para o alto escalão, ano a ano. Analisamos os relatórios de administração, analisamos as finanças, a política, o mercado global, fazemos votos e vamos lá apresentar direto ao presidente”, afirmou Carolina de Moura, uma das pessoas que assinaram a ação. “Então essa denúncia é um acúmulo de um longo período de trabalho nesse espaço”, ressaltou.

A barragem 1 da mina de ferro Córrego do Feijão da Vale,, se rompeu na última sexta-feira, deixando pelo menos 99 mortos e centenas de desaparecidos, em um dos maiores desastres industriais do Brasil, levantando inúmeras críticas à gestão das barragens da companhia.

A estrutura continha 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos do processo de beneficiamento de minério de ferro e despejou uma montanha de lama em área administrativa e em um refeitório da empresa, na hora do almoço, além de atingir comunidades, vegetação e rios da região.

O grupo de acionistas faz parte do Movimento Atingidos pela Vale, que lidera ações em comunidades impactadas de alguma forma por empreendimentos da empresa em diversos Estados do país e no exterior, incluindo na África, por exemplo, segundo Moura, que é moradora de Brumadinho.

No documento à CVM, os acionistas afirmam que “a empresa, em várias oportunidades, foi alertada pela sociedade civil de que o rigor no processo de ampliação e continuidade da mina do Córrego do Feijão estava aquém do necessário, considerando-se o tamanho e potencial poluidor do empreendimento”. Procurada, a Vale não comentou de imediato.

Uma apresentação corporativa da Vale já demonstrava em 2009 preocupações sobre suas barragens de rejeitos, mas a empresa não implementou várias medidas avaliadas que poderiam ter evitado ou diminuído os danos do desastre fatal da semana passada.
Moura disse que chegou a apresentar em assembleia de acionistas da mineradora no ano passado um voto questionando a administração da Vale sobre o conteúdo da apresentação corporativa de 2009.

Mariana – A denúncia do grupo de acionistas aborda ainda o rompimento de outra barragem envolvendo a Vale, há pouco mais de três anos, e amplia pedidos de investigação pela CVM. Em novembro de 2015, uma barragem operada pela mineradora Samarco (joint venture da Vale com a anglo-australiana BHP), também se rompeu em Mariana, na região Central, deixando 19 mortos, centenas de desabrigados e poluindo o importante rio Doce, no maior desastre ambiental do Brasil.

Além desses casos, o grupo levanta pesadas críticas a empreendimentos da empresa no Pará e Maranhão, como Onça Puma, Salobo e S11D, que segundo eles envolveriam questões não devidamente comunicadas aos acionistas. (Reuters)