23/08/2017- Bahia- As cestas de trançado do município de Entres Rios, o arco e flecha de Banzaê (nordeste baiano) e as carrancas de Juazeiro (norte) são algumas peças da Exposição de Artesanato do Estado da Bahia que começa nesta quinta-feira (24), no Palacete das Artes, no bairro da Graça, em Salvador, uma iniciativa da Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte do Estado (Setre), por meio da Coordenação de Fomento ao Artesanato. Foto: Marcelo Reis

Rogério Faria Tavares *

É tarefa complexa definir o conceito de Cultura. Particularmente, acredito que Cultura são os modos de ser e de viver, de criar e de representar a realidade. Por conta disso, ela acaba se tornando um elemento constitutivo da identidade pessoal e coletiva. Poderosa, fornece a base sobre a qual as diferentes comunidades constroem sua experiência cotidiana e projetam seus sonhos para o futuro. E mais. A Cultura é também produto da História, campo em que é forjada, quase sempre, como resultado de conflitos, disputas e do jogo de forças presente na trajetória da humanidade.

A Arte, por sua vez, é um lugar de manifestação da Cultura. Além de representar a realidade, ela também propõe a criação de novas realidades. A Arte é uma das mais potentes expressões da capacidade humana de relacionar-se com o mundo e de inventar – sem limites, sem regras – outros mundos. Sendo várias as manifestações consideradas artísticas, é possível distingui-las por seu posicionamento em relação à ordem vigente. Há muitas manifestações artísticas que aderem à realidade, sem questioná-la. Pelo contrário: há aquelas que não só concordam com a realidade como reforçam o modo como ela está construída. São manifestações legítimas como as demais – já que não existe regra para o fazer artístico, sua característica essencial. O fazer artístico requer a liberdade plena, exercida em todas as suas dimensões: a liberdade de consciência, a liberdade de pensamento, a liberdade de expressão…

A Arte que eu, pessoalmente, mais aprecio, não se conforma com a opressão, a intolerância, o ódio ou o preconceito. Gosto da Arte que vem para propor dúvidas, para instalar a estranheza e a desconfiança, para inspirar a transformação e, quem sabe, promover a libertação. Mas gosto, sobretudo, da Arte que faz pensar. Não falo de uma Arte que seja panfletária ou partidária. Mas de uma Arte que seja libertária, humanista. Essa Arte não aceita a restrição e a censura, e está comprometida com a convivência solidária e fraterna entre as pessoas.

Já a Política, para mim, é o fenômeno da vida social a que se atribui a função de compatibilizar e de gerir os diferentes interesses que movem os cidadãos. E isso a Política geralmente executa por meio de instituições públicas, como o Estado. Ao território da Política cabe organizar e governar as diferentes comunidades. A Política, para isso, se utiliza da negociação, do diálogo, do debate e da disputa democrática. Fora da Política, não há salvação, mas barbárie. Por isso é tão perigoso demonizar a Política como um todo, preferindo a ditadura ou o autoritarismo, configurações que negam a sua verdadeira importância.

Se a Política é dimensão essencial à vida em sociedade, é natural que a Arte se interesse por ela e que represente o modo como a Política se efetiva nas distintas sociedades. Mais que isso: é natural que a Arte gerada nas diferentes comunidades humanas seja, em grande medida, resultado do que a Política nelas vigente permitiu que ela fosse.

Em sociedades autoritárias, repressivas ou violentas, a Arte florescerá de modo bem diferente do que é observado nas sociedades mais inclusivas, mais tolerantes e abertas à diversidade. Ainda que seja possível (e fundamental), mesmo nas sociedades mais fechadas, fazer a chamada Arte da Resistência.

* Jornalista. Da Academia Mineira de Letras