Tilden Santiago *

Cada brasileiro deveria saber que nas raízes de sua existência histórica há uma Senzala e uma Casa Grande. E acreditar que não existe povo livre sem líder, saída do Egito sem Moisés, Libertação da Humanidade e restauração do Universo criado, sem Yeshua de Nazaré, o Libertador. Vale a pena, no contexto dos Arturos, reler Gilberto Freire.

A Comunidade Quilombola dos Arturos – Patrimônio Cultural e Humano de Contagem – realizou sua tradicional Festa da Abolição como faz anualmente em maio e em outubro. Conheci e me apaixonei pelos Arturos, através dos amigos Simone, Beto e Sofia, vizinhos deles e da Igreja do Rosário.

O ápice das celebrações se deu no sábado e domingo mobilizando boa parte da população contagense, de Minas e mesmo admiradores e estudiosos da raça negra e da escravatura do Brasil e do exterior. O escudo-estandarte estava exposto por toda parte: duas espadas cruzadas dos congadeiros sob uma coroa de rei ou rainha das Guardas.

No pôr do sol de sábado, as Guardas de Congo e Moçambique saem em cortejo festivo pelas ruas. Até parecia Domingo de Ramos! Levantamento de mastro na Casa da Cultura, no museu histórico, na capelinha da Comunidade e na Igreja do Rosário era sinal evidente do júbilo dos afro-contagenses.

No domingo, despertar com Matinas e a Dança que chama o Sol no coletivo habitacional dos Arturos. O desfile dos escravos encontra no Rosário as guardas que vieram de outras cidades. Encenação teatral com o Grupo Arturos Filhos de Zambi e Missa Gonga com o padre Antônio Gouveia, ele também descendente-afro, acolhendo com carinho as guardas na entrada do tempo. Uma bela homilia do sacerdote negro entrelaçou a libertação dos escravos com o Dia das Mães.

Os negros, como as classes populares em geral, nunca se organizam sem liderança. Não há libertação sem Moisés! Em Contagem não é diferente! O grande responsável por essa saga da história de nossa cidade – os Arturos foi “Seu Antô” – Antônio Maria da Silva, mestre de tradições culturais e Capitão Regente de Reinado da Comunidade Quilombola dos Arturos.

O Zumbi dos negros de Contagem faleceu em 20 de julho de 2018. Seus dez filhos e filhas e muitíssimos netos e bisnetos presentes no Rosário testemunharam como ele soube transmitir aos descendentes a paixão pela arte de preservar seus legítimos hábitos e costumes, num tempo em que pouco se falava sobre luta contra racismo e preconceitos.

Durante o teatro, homens e mulheres mostravam para o público realidades queridas e objetos manuseados pelos ascendentes: gamelas com frutas tropicais, panelas de pedra com cozidos, enxada, estrovenga, cabaças, que matavam a sede dos trabalhadores no campo, lamparinas, lampiões, um chicote que sobreviveu as torturas e flagelações do capataz, chapéus de palha, crianças e nenéns sorrindo e chorando, homens de turbantes, penteados-afro da mulheres, com suas grandes saias brancas e coloridas, com seus colares e sementes e seus brincos metálicos enormes.

Tudo ao som do berimbau, do rufar dos tambores sagrados, dos passos da capoeira, das flautas doces das rainhas com seus mantos multicores e suas coroas douradas ou prateadas brilhando. Ao dançar, nos transportavam para o batuque, o maracatu, o samba. Mesmo sendo cristãs convictas não escondiam o sincretismo religioso presente no requebrar e na batida dos braços, suas raízes-afro tão frequentes nos terreiros da umbanda. Tudo cadenciado pela marcação das “gungas” de latas amarradas no tornozelo.

A liderança de Seu Antônio continua através de novos líderes e reis e rainhas presentes na festa grandiosa: Jorge, Everton, presidente da Irmandade do Rosário, Mario Braz da Luz, Capitão-Mor e Patriarca da Comunidade dos Arturos, o benzedor muito estimado e famoso em Contagem, Rei e Rainha Conga José Maria e Maria Lucia, Rei e Rainha 13 de maio Antônio Eustáquio e Maria Auxiliadora.

Arturos: união, democracia e lutaOs Arturos são orgulho para todo contagense! Morador do bairro Eldorado desde 1975, esse escriba como jornalista imortalizou nas páginas do querido Jornal dos Bairros, os Arturos e Seu Antônio. Hoje avô, levo meus três netosa comunidade para receber a bênção e os fluidos do velho Mário – temente a Deus aos Pretos Velhos e Orixás. Sempre pensando em minha bisavó escrava, mãe de vovô Sebastião e avó de mamãe Maristela, numa Casa Grande e numa Senzala em São Domingos do Prata. Todos hoje nos corredores do Infinito.

Legítimos descendentes dos escravos, os Arturos lutam contra o racismo e o preconceito existencialmente com a própria vida, semeando por onde passam alegria e a ternura tão presentes no coração e na alma das gentes que vieram da Mãe África.

*Jornalista, embaixador e anglicano