Presidente eleito Jair Bolsonaro anunciou o nome do militar para o Ministério de Minas e Energia pelas redes sociais - Rovena Rosa/Agência Brasil

Rio – O presidente eleito Jair Bolsonaro surpreendeu o setor energético na sexta-feira (30), ao indicar para ministro de Minas e Energia o almirante de esquadra Bento Costa Lima Leite de Albuquerque Junior, atualmente diretor-geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha.

Ao descartar indicações do mercado de peso que circulavam nos bastidores, a nomeação do militar foi recebida com certa resistência por especialistas, pela falta de experiência nos segmentos e também por poder colocar em dúvida o viés pró-mercado esperado de Bolsonaro.

No entanto, com poucas informações ainda sobre o perfil do almirante Bento, especialistas ponderaram que a escolha traz aspectos positivos, como expectativas de isenção para mediar antigos conflitos do setor de energia, devido à ausência de indicação política ou de mercado.

O anúncio, feito por Bolsonaro no Twitter, representa o primeiro nome da Marinha no alto escalão do governo Bolsonaro, que já conta com integrantes do Exército e da Aeronáutica.
Com pós-graduação em Ciências Políticas e MBA nas áreas de gestão internacional e gestão pública, o almirante Bento ocupou diversos cargos na Marinha, como comandante-em-chefe da Esquadra e secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação, além de ter atuado no exterior como observador de tropas da ONU durante a guerra na Bósnia e na Croácia.

Até a véspera, pouco se sabia sobre qual seria a escolha de Bolsonaro para o ministério.
Foram levados à equipe de transição do governo nomes como do ex-secretário-executivo do Ministério de Minas e Energia (MME) Paulo Pedrosa, o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (Cbie), Adriano Pires, assim como do próprio integrante da equipe de transição, Luciano de Castro, especialista no setor.

“O fato de você querer uma figura carimbada do setor eventualmente pode trabalhar contra uma revisão que se faz absolutamente necessária”, disse o ex-diretor da agência reguladora de petróleo (ANP) e consultor do setor de petróleo John Forman.

O consultor pontuou que experiência nos setores de energia e mineração não necessariamente é importante, citando que o ex-ministro Fernando Coelho Filho, “um garoto de 32 anos, fez uma gestão espetacular”, incluindo reformas importantes.

Na mesma linha, o professor e pesquisador do Instituto de Economia da UFRJ, Edmar de Almeida, diz que, por não ter sido uma indicação política e nem de um setor específico, almirante Bento poderá ter “certa independência para arbitrar as disputas”.

Adriano Pires, que chegou a ser cotado para o ministério, concorda. “A escolha do novo ministro de Minas e Energia foi acertada. O setor de energia precisa de um ministro independente e que tenha total apoio e confiança do presidente para implantar uma agenda de vanguarda, em especial no setor elétrico.”

Leia também:

Indicação é positiva para o setor nuclear

Equipe ministerial está próxima de ser completa

Dúvidas – Por outro lado, Almeida, da UFRJ, observou que o nome pode sinalizar certa dificuldade para a estratégia econômica em linha com o que o futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, estava pensando para o setor de energia.

“Privatizações, mais liberalização, não é o DNA da área militar. Então, isso coloca certa dúvida em relação a orientação estratégica mais liberal para o setor de energia”, afirmou.
Especialistas pontuam que é preciso aguardar um pouco a escolha dos secretários e declarações de almirante Bento para que as expectativas sejam mais claras.

“Eu francamente não gostei. Talvez a expectativa de que seria alguém do mercado… deixou um gosto amargo com a vinda de um militar do problemático universo nuclear”, afirmou um executivo do setor de petróleo à Reuters, que falou na condição de anonimato.

“Precisamos estudar o perfil dele, mas me parece, à primeira vista, que Minas e Energia não estaria inteiramente vinculado à visão liberalizante do Paulo Guedes.” (Reuters)