Tilden Santiago*

O governo acaba de expurgar Paulo Freire e seu legado filosófico e pedagógico (Pedagogia do Oprimido) do ensino na educação brasileira. Para surpresa e estupefação de cientistas-pedagogos do mundo inteiro! Tal condenação é política, feita certamente por quem nunca leu, nem praticou a sabedoria, que emanou da pena, inteligência, alma e coração de Paulo Freire e seus alunos. Com a palavra, o ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, colombiano; e o guru-mentor de Bolsonaro Olavo de Carvalho, que já bebericou nas águas da Ciência! Mas o expurgo de Paulo Freire não é de hoje…

Voltemos a 1969. 20 de julho: Neil Armstrong, astronauta norte-americano, pisa na Lua pela primeira vez. Zé e Chico, há mais de seis meses presentes no Engenho Velho – Gramame, Paraíba – tentaram quebrar o ceticismo dos camponeses, demonstrando que a chegada do primeiro homem à Lua é verdadeira, resultado do avanço da Ciência!

O sol  já se punha, quando os lavradores se assentaram com suas enxadas e estrovengas, no chão que dona Terta acabara de varrer com sua vassoura de mato, em frente à venda de seu marido, Seu João Salustino (84 anos).

Chico preparou 3 cocos de diferentes tamanhos – o sol, a terra e a Lua ligados por embiras – para explicar a viagem do homem da terra à Lua.

O missionário era vidrado em “Ciência’’, aprendida em academia militar na Austrália. Escutado em silêncio profundo pelos nordestinos, foi interrompido por João Salustino, abraçado a dona Terta na porta da venda:

“Chega não Chico! Nas coisas de Deus, o homem não bota o pé nem a mão…Se for quarto minguante, eles não vão nem arranhar! Se for Lua cheia, Jesus manda uma chuvinha para cobrir a Lua na hora em que estiverem chegando”. A aula acabou…

Seu João foi aplaudido por todos de pé e ofereceu Pitu, Serra Grande, cerveja quente, tira-gosto de salame, tudo para o “cientista” e sua plateia descrente, com louvores a Deus, à Natureza e à “Ciência”. Zé observava tudo!

Zé e Chico, à noite, ouviam pela BBC de Londres, Voz da América e Voz de Moscou, a aventura épica do ser humano pisando o satélite.
Espiritualistas e hippies, eles trocaram o Sul do Brasil, menos subdesenvolvido e mais industrial, pela arte de plantar no Nordeste, predominantemente rural, pobre e com uma “cultura” de luta pela sobrevivência. Engenho Velho era um símbolo do subdesenvolvimento nordestino e de um Brasil imerso profundamente numa ditadura que, pouco antes, em 13 de dezembro de 1968, havia sido reforçada e endurecida (AI-5) por um golpe dentro do golpe, expurgando a democracia e a liberdade. Mas havia pouca consciência dessa situação naquelas paragens, apesar das marcas deixadas pelas Ligas Camponesas.

A alternativa para Zé e Chico foi criar uma “Escolinha Paulo Freire” para crianças, jovens e adultos, tentando colocar em prática um método científico de educação libertadora. Zé era de Minas e Chico australiano. Era mais fácil chamar Tilden José de ‘’Zé’’ e Franz Kevin de ‘’Chico’’, filósofos e teólogos na Roma do Concílio Vaticano II, em 1963 e 1964, viraram “padres-operários” na indústria: Israel, Palestina, Itália, Vitória e São Paulo. Mas na Paraíba, se inseriram numa comunidade de lavradores. Todo mundo, ali, conhecia até Tupã, o cão fiel, e Pandeiro, o cavalo passarinheiro dos apóstolos missionários, especialmente de Zé que nele transportava a produção para as feiras de João pessoa. Incentivavam o trabalho social na região, como fruto da palavra anunciada e vivenciada. A Escolinha Paulo Freire era um deles.

Ela valorizava o “universo linguístico e existencial” daquelas famílias: casa de pau a pique coberta de palmeiras, galinheiro, cocheira, paiol, chiqueiro, leirões, brejos, areal, a mata onde os jumentos buscavam lenha, perus, patos, galinhas e galos, guinés (angolas), cavalo, vaquinha, bezerros e o sol, a Lua e as chuvas, córregos e rios, as aningas nos córregos entupidos, touceiras de cana atacadas pelos ratos, enxada, foice, estrovenga, pedras de afiar ferramentas, sanfona, pandeiro, viola, festas, árvores, benditos, procissões, a fé, o Divino, Deus e Maria. Os alunos aprendiam através de “seu universo linguístico e existencial”. Éramos mais evangelizados que evangelizadores, como Bartolomeo de Las Casas no Caribe e Charles de Foucauld entre os Tuaregues no Saara.

Zé e Chico passaram o fim de semana em Recife para se informar sobre o Brasil, a América Latina e o mundo. Ao voltar para o Engenho Velho, encontraram a porta de sua choupana arrombada e a cocheira do Pandeiro incendiada. Os vizinhos acorreram logo, assim que os amigos chegaram, tentando “consolá-los”.

Foi dona Terta que revelou o ocorrido: “Quando ouvi o latido do Tupã de vocês, o dos nossos cães, olhamos de longe, com medo, o jipe do Exército estacionado e a cocheira do Pandeiro queimando! Não pudemos fazer nada. E eles foram embora”.

Seu marido, Seu João Salustino questionou Zé e Chico: “Vosmecês acreditam que o homem acaba de pisar na Lua e não sabiam que um dos herdeiros, donos dessas terras, era o coronel comandante do Quartel de João Pessoa? Aquele do relógio que marcava 4h30 da manhã, quando chegávamos, de madrugada, na cidade com nossos caçuás e nossos produtos”. Sabedoria de um velho lavrador que aos 84 anos ainda puxava o mato no cabo da “malvada” e tirava boi atolado no brejo.

Levaram nossos livros, inclusive Pedagogia dos Oprimidos, de Paulo Freire. A perda maior foi o caderno, onde anotávamos as pérolas, que saiam da boca dos alunos: “As palavras geradoras , palavras-chaves”. Levaram bíblias em português, latim, francês, inglês, italiano, esperanto, espanhol, árabe, grego e hebraico, talvez pensando que das duas últimas uma fosse escrita em russo.

1969: perseguição aos livros de Paulo Freire na Paraíba. 2019: 50 anos depois, tenta-se expurgar o próprio autor e seu legado. É a rejeição de um método científico reconhecido internacionalmente na academia, nas pesquisas, e na educação dos pobres e excluídos.

Apesar de tudo isso, durma em paz Paulo Freire! Outros nos sucederão na continuidade do seu legado: Pedagogia do Oprimido-educação popular!
 
*Jornalista, Embaixador e Militante