Crédito: REUTERS/Adriano Machado

Carlos Perktold *

O diretor francês François Truffaut dirigiu Fahrenheit 451 (1966), filme baseado no livro do mesmo nome de autoria de Ray Bradbury. A temperatura indicada no título corresponde àquele na qual tudo é destruído pelo fogo. O livro relata que num suspeito país, o corpo de bombeiros não apaga incêndios, pelo contrário, é encarregado de incendiar as bibliotecas ainda existentes. São os bombeiros incendiários.

Bolsonaro e seus filhos deveriam se inscrever no imaginário corpo de bombeiros daquele país, tão grande é a capacidade de todos de tocar fogo em tudo que falam. Eles têm bafo de dragão. Além deste bafo, parece existir junto dele um galão de gasolina, que é usado toda vez que uma fogueira começa a se apagar ou outra que precisa começar. O dragão não tem sossego, incendiando tudo. Toda semana uma grave crise é provocada, derrubando bolsa de valores, subindo a taxa cambial e criando novas e desnecessárias dificuldades do Executivo entre os congressistas. Quando não são essas coisas medonhas politicamente, o capitão faz promessa de tsunami na próxima semana. Desde o episódio com a deputada Maria do Rosário, ele não se dá conta da importância de suas palavras então como congressista e agora como presidente. Se há um tsunami na próxima semana, melhor ficar calado.

Cheio de boas intenções desde a campanha que o levou à Presidência, nosso capitão pena para lidar com os nobres republicanos do Congresso Nacional, interesseiros na manutenção do que está em vigor há centenas de anos no Brasil. Eles se Interessam pela manutenção no governo de suas velhas famílias oligárquicas, a eleição dos bisnetos, netos, filhos e em suas reeleições ad infinitum. As famílias almoçam e jantam os banquetes oferecidos pelo orçamento nacional e estão se lixando para estratificações sociais baixas.

O capitão não parece ter a experiência que deveria ter de lidar com o Congresso, quando pensamos que, afinal, ele foi seu integrante por vinte e oito anos. Neste período aprendemos qualquer coisa que nos for ensinado. Menos ele. Parece não perceber os grupos de interesse em não deixá-lo ser bem-sucedido nas promessas de campanha. Todos compreenderam que se ele for exitoso nelas, aqueles grupos correm o risco de não ver a Presidência por muitas e muitas eleições. Todos sabem disso. Por isso, sabotam-no sem se preocuparem com o País. A Medida Provisória que alterou a administração federal vence no próximo dia 3 de junho e não deve ser votada, retornando o País à forma administrativa dos governos de Lula, Dilma e Temer. O pacote anticrime do Ministro Sergio Moro está parado, como se fosse algo que ameaçasse a população. É uma ameaça aos bandidos. A reforma da Previdência, tão cansativa na mídia, precisa ser aprovada, mas as discussões são infinitas. Se há reforma melhor que aquela apresentada pelo Executivo, que a nova seja apresentada, discutida e votada rapidamente.

O texto do servidor público citado no twiter do presidente confirma a pergunta que todos fazemos: pra que serve o presidente, se o Congresso o impede de governar?

*Psicanalista e escritor