Mumbai e São Paulo – O Brasil perderá para a Índia a liderança na produção de açúcar no ano-safra internacional 2018/19, pela primeira vez em décadas, o que salienta um movimento em curso na indústria brasileira de direcionar cada vez mais cana para a produção de etanol, em uma conjuntura de baixos investimentos nas lavouras que têm resultado em produtividades cada vez menores.

Ao mesmo tempo, contando com esquemas de subsídios para um setor politicamente sensível, a Índia deverá ter uma produção recorde de açúcar de cerca de 35 milhões de toneladas na nova temporada que começa em outubro, enquanto o volume do Brasil está projetado para recuar cerca de 10 milhões de toneladas ante a temporada passada, para cerca de 30 milhões de toneladas, segunda avaliação de analistas.

A mudança na liderança pela produção de açúcar deverá ter reflexo nos fluxos comerciais da mercadoria ao redor do mundo, com as exportações brasileiras perdendo fatia, enquanto a Ásia ganha espaço no mercado global e concentra estoques da commodity, especialmente na Índia.

Alguns afirmam que a liderança indiana na indústria de cana é apenas aparente, uma vez que o Brasil continua com a maior oferta de sacarose e produz um açúcar de melhor qualidade.

Mas o fato é que, com os preços dos combustíveis em alta e os do açúcar perto de mínimas em dez anos em Nova York, o incentivo para a indústria brasileira retomar mercados é baixo, até porque a Índia, com grandes volumes em estoques, pode aparecer como exportador relevante, ainda que conte com subsídios.

Além disso, a Tailândia, segundo exportador global atrás do Brasil, está na Ásia, grande região consumidora.

“A Índia tem todas as condições de exportar, normalmente ela exporta, ela pode intensificar a exportação. A Tailândia tem exportado muito, a Ásia hoje é um grande fornecedor da Ásia, o Brasil praticamente saiu da China”, disse o consultor Júlio Maria Borges, da Job Economia e Planejamento, acrescentando que as exportações brasileiras no ano-safra deverão recuar cerca de 9 milhões de toneladas.

Além da grande safra da Índia, Borges ressaltou que a produção da Tailândia terá uma redução de 1 milhão de toneladas na nova temporada, para aproximadamente 14 milhões.
Considerando-se que a colheita de cana do Brasil e da Índia ocorre em momentos diferentes, a Job anualizou a produção brasileira para o período de outubro a setembro, obtendo 30,4 milhões de toneladas de açúcar, ante um intervalo de 33 milhões a 35 milhões de toneladas no caso indiano.

“Nós perdemos essa condição (de maior produtor) e não sei quando vamos recuperar… O preço do açúcar está baixo, etanol e gasolina estão mais altos. Quando muda isso, é difícil de dizer”, afirmou Borges, lembrando que o Brasil vinha liderando o ranking de produção global desde que a União Europeia perdeu essa condição, na década de 1990. (Reuters)