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Carlos Perktold *

A primeira viagem de qualquer brasileiro a países acima da linha do Equador causa um choque cultural pela inevitável comparação entre aqueles que estão abaixo dela.

O norte é mais desenvolvido, mais culto, mais educado e mais rico. Surpreso com metrôs funcionando, arquitetura preservada, limpeza nas ruas e intenso movimento econômico, o brasileiro se imagina em outro planeta, tão grandes são as diferenças entre nós e eles. Quando o mesmo viajante volta, tem novo choque porque somos menos desenvolvidos, menos cultos, menos educados e mais pobres.

O resultado dessa diferença pode ser comprovado logo quando tomamos rumo ao centro da cidade, qualquer cidade. Os muros, portas de aço e prédios estão pichados e a feiura é vista ao longo de todo caminho. Há uma competição entre os pichadores para ver quem picha mais e mais alto nos prédios, tornando o conjunto uma paisagem horrenda. Os proprietários assistem a tudo impotentes e perplexos pela ousadia.

Este articulista acaba de voltar de nova viagem a um país do norte e faz aqui a tal da inevitável comparação. Das seis pias do banheiro da sala de conexão internacional do aeroporto de Guarulhos, em quatro não havia água. Por se tratar de concessão a empresa particular, é muito provável que as seis já funcionaram há algum tempo, mas foram sendo destruídas devagar e talvez a empresa cansasse de reconstruí-los, prejudicando os frequentadores.

A sala é um lugar reservado, de difícil acesso para quem não é viajante, mas nela havia dois mendigos pedindo colaboração. Perguntados como chegaram a entrar em lugar tão restrito, responderam que “dá um dinheiro pro tomador de conta”. Diante do descaso do banheiro, da diferença social representada por mim e pelos outros passageiros e os dois pedintes e ainda a confissão da corrupção, sinto-me em casa novamente.

Perguntado no exterior pelas reformas em curso no Brasil, causou-me constrangimento tentar explicar para alguns habitantes daquele país a atitude egoísta dos nossos congressistas, o jogo de interesses pessoais e políticos, a impossibilidade de pequenos ou grandes grupos de brasileiros aceitarem a perda de algo em favor do país. Aqui, ninguém quer perder nada.

Eles também têm dificuldades de compreender por que não pensamos em longo prazo, nas gerações futuras, em nossos filhos e netos E também não entendem por que tantos obstáculos em fazer as reformas em geral e a da previdência em particular, se é benéfica para o país. Minha resposta é resumida e autoexplicativa: o Brasil é para profissionais, não é para principiantes.

Brasileiros morando no exterior há anos sabem do que falo. Os interesses pessoais e privados falam mais alto entre os nobres republicanos do Congresso Nacional. Nativos simpáticos aos trópicos riem de minha resposta. Esclareço que explicação mais longa precisa ser vivida aqui, aceitando o caráter, a falta de caráter e até a sociopatia da avassaladora maioria dos políticos.

No momento em que aqueles civilizados nativos compreendem a dimensão do que fazemos com o nosso próprio país, eles têm um choque sociológico tão grande quanto à maioria dos brasileiros têm quando veem estradas que mais parece um tapete persa estendido pelos campos e montanhas.

Abro o jornal do dia da chegada e leio que a prefeitura do belo Rio de Janeiro está contratando empreiteiros para tapar duzentos e cinquenta mil buracos nas ruas. Surpreende-me saber que ainda há ruas e avenidas no meio dessa quantidade de rombos.

Como eu gosto de me orgulhar do meu país, consolo o prefeito daquela cidade e esclareço que a perda de água do Mar Morto em Israel, provocada talvez por tsunami, resultou no aparecimento de apenas seis mil imensos buracos nas novas praias. Orgulhei-me de ver o Primeiro Mundo se curvando à grandeza dos números do Brasil.

*Psicanalista e escritor