Crédito: Enildo Amaral/BCB

São Paulo – O Banco Central decidiu manter na quarta-feira (19), por unanimidade, a taxa Selic na mínima histórica de 6,50% ao ano e ressalvou que, embora o balanço de riscos para a inflação tenha evoluído de maneira favorável, o risco relacionado à agenda de reformas é preponderante, o que prescreve manutenção do juro básico no atual patamar.

O BC excluiu o termo “simétrico” para se referir ao balanço de risco à inflação -utilizado no comunicado da decisão de maio. E informou que em seu cenário básico para a inflação permanecem fatores de risco em ambas as direções.

O Comitê de Política Monetária (Copom) do BC elencou três riscos: dois domésticos e um externo. Para o Copom, uma “eventual frustração” das expectativas para reformas e ajustes necessários à economia brasileira pode afetar prêmios de risco e elevar a trajetória da inflação no horizonte relevante para a política monetária.

Esse risco é intensificado, segundo o Copom, pelo risco relacionado a uma deterioração do cenário externo para economias emergentes.

Do lado benigno para a inflação, contudo, o “elevado” nível de ociosidade da economia pode continuar produzindo trajetória prospectiva abaixo do esperado para a alta dos preços.

Ainda no comunicado, o Copom reiterou que a conjuntura econômica prescreve política monetária estimulativa, “com taxas de juros abaixo da taxa estrutural”. A taxa estrutural é aquela que, teoricamente, não estimula nem restringe o crescimento econômico e mantém a inflação na meta.

Para o Banco Central, é importante observar o desempenho da economia brasileira ao longo do tempo, com redução do grau de incerteza a que continua exposta. Mas o colegiado do BC retirou do texto o entendimento anterior de que a avaliação sobre a economia “demanda tempo e não deverá ser concluída a curto prazo”.

O texto do comunicado dá sequência às mudanças gradativas feitas pelo colegiado do BC no sentido de se ajustar ao cenário de atividade econômica e inflação mais fracas, o que tem corroborado expectativas de cortes da Selic nos próximos meses.

Em fevereiro, o Copom disse que o balanço de riscos para a inflação mostrava “assimetria” para uma inflação mais elevada. Já em março, o colegiado passou a considerar riscos simétricos, com atividade econômica em “ritmo aquém do esperado”, mas em processo de retomada.

Em maio, o Banco Central manteve a leitura de balanço de riscos simétrico para a inflação, mas sugeriu piora na avaliação para a economia ao dizer que os indicadores sinalizavam “continuidade” do arrefecimento da economia do fim de 2018 para o início de 2019, esperando retomada do processo de recuperação “gradual”.

Além disso, na ata da reunião do Copom de maio, o Copom reconheceu que os riscos associados à ociosidade dos fatores de produção haviam se elevado na margem.

Com a manutenção da Selic na quarta-feira, o Copom evita mexer nos juros pela décima reunião consecutiva, um recorde do regime de metas de inflação no Brasil. Entre setembro de 2015 e agosto de 2016, o colegiado do BC deixou os juros em 14,25% por nove reuniões seguidas.

Repercussão – Entidades empresariais mineiras defendem a adoção de um ciclo de corte nos juros para incentivar a atividade econômica e ressaltam a necessidade de avanço nas reformas estruturais do País.

Em nota, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Flávio Roscoe, aponta que há espaço para o início de um novo ciclo de redução da taxa Selic. Entre os fatores apontados está a debilidade da atividade econômica. Além disso, ele cita o comportamento da inflação, uma vez que as expectativas são de cumprimento da meta do IPCA em 2019 e, possivelmente em 2020.

Roscoe aponta também a necessidade de um estímulo para a atividade econômica. “Entendemos que a redução na taxa Selic é importante para estimular a economia brasileira e compensar o choque negativo decorrente da paralisação parcial no setor de mineração em Minas Gerais”, afirma.

O presidente da Associação Comercial e Empresarial de Minas (ACMinas), Aguinaldo Diniz Filho, lembra que o mercado financeiro já sinaliza a favor da redução da Selic.

“A instrumentalização de uma política monetária expansionista, por meio a ampliação do mercado de crédito, poderia auxiliar na inflexão do atual contexto da atividade econômica do País, isto é, do ambiente de estagnação ou paralisação”, afirma em nota.

O presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL/BH), Marcelo de Souza e Silva, em nota, também defende o corte na taxa Selic.

“Esperamos que nas próximas reuniões do Copom seja considerada uma nova redução dos juros. Nossa expectativa também é que o novo governo crie um ambiente interno propício para atração de investimentos produtivos para o País, que gerem emprego e renda”, afirma.