Stefan Salej*

Mortes e mortos. Famílias que perderam filhos, maridos, esposas, destruídas para sempre. A dor que não desaparece. A dor que fica mesmo recompondo a vida.

Brumadinho. Ceará. Chuvas no Rio. Tragédia da Raça Rubro-Negra no Rio de Janeiro. O campeão mundial de assassinatos e de acidentes de trânsito. E de acidentes de trabalho. E a  segunda maior população carcerária do mundo, sem falar em condições sub-humanas em que estão nossas prisões.

Para alguns, eventualmente mais religiosos, é castigo de Deus. Pode ser.
Mas, em tudo isso tem a mão do homem, da pessoa humana. Aqui cabe bem a pergunta, que país é esse, que gente somos.

Os desastres de Mariana e Brumadinho já foram muito debatidos e suas consequências ainda não terminaram. Onde prevaleceu a ganância sobre a segurança das pessoas, continua prevalecendo o interesse financeiro sobre a solução para as famílias e a sociedade. Responda  você mesmo, sem se deixar influenciar pelas ações de comunicação liderados pelo genial mago da comunicação brasileira Nizan Guanaes, que assessora a Vale e tenta nos convencer de que tudo isso não tem importância porque vamos continuar exportando minério e tendo dividendos e valorização das ações da empresa.

No caso dos garotos do Flamengo, é impressionante como a maior parte dos comentários, até do porteiro do meu prédio, é sobre quanto perderam o clube e os jogadores, além dos intermediários, já que todos eles eram talentos que podiam ter contratos no exterior. Escravos esportivos, ilusões e sonhos interrompidos dos dirigentes e famílias. Será que as famílias não sabiam em que condições eles viviam?  “Aguente, início da vida é assim.

Veja hoje como está o Neymar. Você vai chegar lá.” Dos dirigentes do clube e até dos torcedores. E quem será culpado pelo assassinato desses jovens? Quem tem coragem de dizer na cara dos dirigentes do clube, ou dos dirigentes das empresas envolvidas em Brumadinho e Mariana, que ajudaram a assassinar pessoas?

Porque foi a negligência deles que provocou os acidentes.
E isso acontece com as enchentes pelo país afora, onde os administradores públicos e os políticos põem a culpa em São Pedro, há sim excepcionalidades, mas não são capazes de fazer  obras decentes e duradouras. Aliás, por outro lado, quando fazem também o eleitorado na maioria das vezes não reconhece e não os elege. É um círculo vicioso da política brasileira que beneficia a enganação, o desleixo e a irresponsabilidade.

Com milhares de exemplos que sempre levam ao desdém da nossa sociedade com a vida humana, a pergunta que se coloca  é quando as  elites brasileiras, sejam políticas, religiosas, econômicas ou sociais,  vão liderar as mudanças para que isso não aconteça mais. Será que novas gerações estão prontas dentro de regime democrático para liderar essas mudanças? Ou vamos continuar sem nenhuma bússola moral e ética marchando para um abismo de onde a volta para uma sociedade pelo menos decente e respeitosa com a vida será quase que impossível.

Insistir que essa mudança pode começar pelas lideranças empresárias faz parte do meu credo pessoal, que é possível e deve ser feito. Mas, a esperança é a última que morre.

*Ex-presidente do Sebrae Minas e da Fiemg, vice-presidente do Conselho do Comércio Exterior da Fiesp, Coordenador adjunto do Gacint – Grupo de acompanhamento de conjuntura internacional da USP