Stefan Salej*

O episódio trágico de Brumadinho abriu  mais uma vez a discussão sobre a responsabilidade social, ambiental e econômica das empresas e dos empresários. A versão, no caso específico da Vale, é que a empresa é um exemplo de responsabilidade social e ambiental. O fato é que nos últimos três  anos morreram em acidentes mais de 120 pessoas nas instalações da empresa. E o fato prevalece sobre a versão.

A questão é qual o grau de confiabilidade tem a tal “responsabilidade social corporativa” (RSC) após os fatos que mostram que os programas são falhos e funcionam só enquanto não acontecem desastres. O assunto não é novo no mundo empresarial e um dos primeiros acidentes ocorreu na Índia, quando vazou líquido tóxico e matou muita gente. E a esse acidente se seguiram vários e empresas foram sempre punidas e suas imagens bem arranhadas.

Há empresas alemãs que hoje são grandes campeões de ética,  que colaboraram com o governo nazista no genocídio dos seis milhões de judeus.

Aqui no Brasil, inclusive nos casos mais recentes, não temos quem verifique, além da imprensa e de instituições contaminadas, a veracidade da RSC. E então se acredita em quem tem mais poder na mídia, quem é melhor. Os últimos acontecimentos terão que mudar os critérios, inclusive com maior adoção de normas internacionais nessa área, com a devida cerificação. Mas, aí também tem problema, já que um dos maiores certificadores é exatamente a empresa alemã TUV, que atestou que a barragem de Brumadinho estava perfeita.

Uma outra questão é o papel das entidades empresariais. Em Minas, e em especial na atual gestão da Fiemg, discute-se muito a defesa da indústria. De fato, há muito a se fazer na defesa das parcerias da indústria com a sociedade, onde inclusive faltam iniciativas e projetos. Mas, como defender os próprios mineradores que no caso específico quebraram Minas Gerais e provocaram tantas mortes? Não há como negar que a opção de desenvolvimento a favor do empresariado mineral, em conjunto com os políticos, foi o que prevaleceu em Minas desde a descoberta do Brasil. Essa ilusão de riqueza e sua exploração, muito mais a favor dos exploradores do que da nação como um todo, foi poucas vezes discutida. Minas com sua elite empresarial e política preferiu a leniência do que uma transformação de sua economia.

Acabaram com a melhor escola de engenharia de Minas do Brasil. A Fiemg protegeu, com entidades como o Ibram e os respectivos sindicatos do setor, o gangsterismo em detrimento do bem comum, inclusive empresarial. E junto com políticos que não são capazes de encontrar outras fórmulas para o desenvolvimento, criou-se uma ciranda que levou, com um sistema judicial omisso e parceiro da ciranda, às consequências de quebra de Minas e a mortes que todos vão ter nas suas consciências. A impunidade do passado gerou os acontecimentos atuais. 

Acordar para mudar o paradigma de desenvolvimento com os cadáveres que o sistema produziu é muito triste. Mas, absolutamente necessário. E neste momento as entidades empresariais têm que ter proposta de mudança  porque o que aconteceu está na conta de todos e de cada um.

*Ex-presidente do Sebrae Minas e da Fiemg, vice-presidente do Conselho do Comércio Exterior da Fiesp e Coordenador adjunto do Gacint da USP