Tilden Santiago *

O amigo Dídimo Paiva partiu deixando muita saudade e o legado precioso para as futuras gerações. Vai ser lembrado sempre pela luta contra a opressão do Regime Militar (1964 – 1985) e pela liberdade de imprensa. Estas duas bandeiras, ele as empunhou como jornalista, e como sindicalista de nossa categoria profissional em Minas: SJPMG e como cidadão.

Na famosa Casa do Jornalista, na avenida Álvares Cabral – 400, presidiu nosso sindicato de 1975 a 1978, defendendo os interesses de nossa classe e a liberdade de expressão, tendo sido ele um divisor de águas na história sindical e política de nossa Casa, predestinada a contribuir na construção de nossa liberdade e democracia em Minas e no Brasil, além da luta sindical.

Dídimo soube levar a categoria a não se limitar à defesa de seus interesses econômicos e a incentivar outras e a sociedade mineira a resistir à ditadura num tempo em que ninguém acreditava que liberdade e democracia dependessem do querer dos militares.

Dídimo explodiu na vida pública e social de Minas a partir da grandiosidade e fibra interior de sua personalidade, que talvez só nós, seus amigos e familiares, pudemos testemunhar. Sua determinação em encarar a luta sindical e a defesa das liberdades democráticas só é inteligível por quem se aproximou do homem, do companheiro, do corajoso, do idealista, do democrata, do cristão solidário, do espiritualista sem pieguice que foi Dídimo, hoje nos corredores do Infinito.

Os anos 60 e 70 em Minas e no Brasil foram anos de trevas sem liberdade e de muita resistência de homens e mulheres que encontrei no jornalismo, no sindicalismo, em iniciativas libertadoras enfocadas na universidade, nas escolas, em igrejas, nas comunidades e nos bairros, e mesmo no MDB de Edgar da Matta Machado e Seu Joaquim Metalúrgico, era o guarda-chuva de todos os que resistiam, inclusive remanescentes da luta armada e ex-prisioneiros políticos.

Foi no impulso da sobrevivência, voltando a Minas, após uma hospedagem no Doi-Codi de São Paulo e passagem pelo Dops paulista, que comecei a ganhar a vida e recuperar coragem na redação como jornalista, na escola como professor e no Sindicato dos Jornalistas (SJPMG).

Fiz grandes amizades nesse momento de volta a Minas. Entre elas estão Dídimo Paiva, jornalista do Estado de Minas, e José Costa, jornalista e fundador do DIÁRIO DO COMÉRCIO e do Jornal de Casa, onde aprendi a fazer jornal por mais de 20 anos.
           

Ambos tinham algo em comum: Dídimo o sindicalismo dos trabalhadores e José Costa militava nas entidades de empresários mineiros. Muito aprendi com ambos em termos de defesa dos valores nacionais mineiros e dos valores morais e culturais que nos protegem da barbárie.
 

Dídimo liderou nossa categoria de 1975 a 1978. Foi uma das colunas do surgimento da organização sindical em Minas, após a devassa impingida pelo Golpe de 64, juntamente com Arlindo Ramos, bancário, João Paulo Pires de Vasconcellos, metalúrgico de Monlevade, Grision, dos  urbanitários, e outros. No final dos anos 70, Lula sonhava em ter até quatro companheiros como base sólida do PT que surgia em Minas. Por diversas razões isso não aconteceu (!?)
           

Aliás, Dídimo foi o primeiro amigo em 1977 que me revelou a existência de Lula: “Baixinho, tá surgindo um líder sindical do Nordeste, no ABC Paulista: Um sol que vai iluminar o Brasil inteiro”.

Dídimo muito contribuiu para a retomada das lutas sindicais nos anos 70 e 80 e para o fortalecimento do Dieese em Minas, inclusive com a participação de um jovem economista que saía da Face, Virgílio Guimarães, amigo de todos eles.
           

Pouco antes de partir, compartilhávamos, Dídimo e esse escriba, nosso desencanto e angústia por tudo o que sucedeu com o petismo e com Lula, matando uma esperança que cultivamos como companheirismo e amizade. Aliás, a amizade perdurou em nossos íntimos. No velório de Dídimo, entre as mais belas e afetuosas mensagens estava a de Lula.

Orgulho-me de, após 7 anos de jornalismo no DIÁRIO DO COMÉRCIO e no Jornal de Casa, ter sido vice de Dídimo na chapa que disputou o SJPMG em 1981. Na campanha, por razões pessoais, ele se afastou e tive de assumir a cabeça da chapa, saindo vitorioso em junho de 1981. Mas Dídimo continuou a ser meu guru no sindicalismo e no jornalismo e de centenas de colegas, entre eles, Washington Melloe Paulo Lott.

Dídimo praticava Política com P maiúsculo, sem ser filiado a qualquer partido. E era um apaixonado pela política e sua missão na história. Nunca conseguiu esconder sua simpatia com a UDN (não a banda podre) e com Lula e o PT antes do débâcle” política e ética.

Mas o que mais saudade me causa é a “afetividade” que nele florescia, junto com uma “ira santa” de profeta contra os desvios da mente e do coração humano. Dessa afetividade podem falar com maior propriedade seus filhos, Cidinha e Cláudia, e um amigo especial, Fernandinho Miranda que faz aniversário com ele e comigo todo 13 de julho.

Fico a imaginar seu encontro com Euro Arantes, Célius Aulicus, Bley Barbosa, Pirolli, Audálio, Délio Rocha, Roberto Drumond, os irmãos Matta Machado, Dirceu Horta, Arlindo, Felício, Grision, Lester Moreira, João Barracão e outros amigos jornalistas e sindicalistas. Verdadeira festa no céu.

*Jornalista e ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de MG (SJPMG)