Stefan Salej*

Está passando no Netflix uma série sobre política mexicana chamada Ingovernable. Pura ficção, mas como toda ficção, tem um fundo de verdade. O país tomado pelo narcotráfico, forças policiais corruptas, e por bandidos internacionais, está em guerra, sendo que mesmo realizando-se eleições nada muda, mas só piora para a população. Em resumo, as eleições por si só não são fator suficiente para as mudanças de que o país precisa. Esse mantra de aparência democrática, ou quase pseudodemocracia, tem um elemento fundamental para que a democracia funcione: quem se elege. Quem é o vencedor das eleições e sua capacidade de governar.

Nas eleições de 7 de outubro tem um turno só para deputados estaduais, federais e senadores. Com o acirramento da campanha presidencial, a escolha de parlamentares ficou, como raras vezes nas eleições anteriores, totalmente no segundo plano. Mas, o fato é que nenhum presidente ou governador pode, mesmo com a força que apresenta o nosso sistema presidencialista, fazer qualquer reforma ou avançar nas legislações sem o apoio do Congresso. Portanto, o desprezo por essa parte fundamental da eleição, juntamente com o  esfacelamento do sistema partidário, com um número inadministrável de partidos, é um dos grandes problemas do nosso sistema democrático.

A escolha do presidente da República apresenta um outro aspecto que confunde o eleitor e traz consequências graves para a gestão do País. Ideologia e ideias. Os candidatos estão se apresentando ao eleitor, ainda na sua maioria analfabeto e de baixa compreensão dos assuntos políticos, com ideias que assolam a sua cabeça, que são importantes sim, mas para as quais nenhum candidato diz com clareza que soluções pretende trazer.

Vamos ao emprego. Emprego quem cria são as empresas. E as empresas o criam com crescimento dos negócios e investimentos. E sobrevivem as empresas competitivas. Para serem competitivas elas precisam de ambiente macroeconômico e político que as fazem competitivas. Por exemplo, as relações de trabalho. Política fiscal. E previsibilidade legal.

Os dois candidatos mais competitivos para a Presidência de República têm enviado mensagens tão confusas para o empresariado, que enfrenta um ambiente internacional de alta competitividade com mudanças tecnológicas, entre outras, que ninguém sabe o que esperar após 1º de janeiro.

O nível de desesperança em que o País volte a crescer, entre os empresários que estão se agarrando como afogado num galho fraco numa correnteza, rezando para que o galho aguente e a água diminua, é de tal proporção que deixam de votar nos candidatos de centro porque os extremos estão cada vez mais próximos.

As perspectivas pós-eleitorais, mesmo com segundo turno, que serão definidas com a escolha do Congresso, são absolutamente desanimadoras. E pelo que estamos vendo, teremos mais quatro anos de velhas políticas, sem gente nova, até que surgem novas lideranças. Uma democracia brasileira, que renova as velhas ideias, práticas e hábitos e permite que seus políticos abusem de forma não impune, mas ungidos pelo sistema, pelo povo brasileiro.

O País só pode ser feito de esperança e rico para aguentar tudo isso. Mas, e o povo, aguenta?

* Empresário, ex-presidente de Sebrae Minas e da Fiemg – Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais