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STEFAN SALEJ *

Há muitas dezenas de anos, os brasileiros se levantaram, e até o escritor Monteiro Lobato colaborou naquela campanha, e exigiram que a exploração do petróleo no Brasil fosse de exclusiva competência nacional.

O slogan, o Petróleo é nosso, ecoava pelo País afora e produziu uma empresa estatal, eficaz, monstruosa, eficiente e inovadora, monopolista, manipulada pelos políticos e técnicos, campeã mundial mais recente em exploração de petróleo em águas profundas e maior escândalo de corrupção que o País conseguiu descobrir, a Lava Jato.

Um orgulho e uma vergonha nacional. Uma empresa para ser elogiada e xingada, executora da política energética nacional.

Petrobras – Essa empresa não é a única estatal na área de energia no mundo. Não é nem pior e nem melhor do que as sete irmãs que dominam o mundo de energia, provocam guerras, persistem em explorar petróleo independentemente dos problemas de clima e de meio ambiente.

É o setor que, com seu produto, move o mundo dentro de sua visão geopolítica, estratégica e, principalmente, do lucro. Provoca crises – lembra-se da crise do petróleo na década de 70? -, conflitos, acaba com economias e países ou, com sua pujança, traz também benefícios para alguns. E muito poder para poucos, sejam políticos, sejam reis, sejam investidores.

Com petróleo não se brinca. Petróleo é uma questão de Estado e não de um governo. E o Brasil, com todos os percalços, não pode dizer que tem solucionado suas crises energéticas pior do que o mundo. Até nos Estados Unidos já houve falta de gasolina nos postos. Os governos, mesmo quando as empresas são totalmente privadas, defendem interesses delas na área internacional, como se fossem parte do estado. Veja os conflitos no Oriente Médio e na África.

Neste momento estamos vivendo um recrudescimento de preços de petróleo que afeta o mundo inteiro. Os preços de derivados de petróleo estão aumentando em todos os países. Mesmo aqueles que são autossuficientes em produção e refino têm aderido a esta onda de aumentos. E aumentos têm sim provocado reações antieconômicas de custos de produção e transporte, como protestos das populações.

O Brasil não escapa a isso. Agora, como cada governo administra isso, eis a questão. No nosso caso, independentemente de a Petrobras ser ou não estatal, a política energética é do governo. A política monetária, ou seja, a preocupação com a inflação, também é do governo. Então o governo ou, neste caso, o Presidente da República, querer questionar vários atores econômicos sobre qual é a política que estão adotando, para quais resultados, não é só legitimo, mas é a sua obrigação.

Liberal ou não, ou qualquer outra etiqueta que se dê ao presidente Bolsonaro, não se justifica que ele, como mandatário da nação, não se preocupe com a questão de preços de insumos de petróleo. Inclusive porque recentemente tivemos um caos nesta questão que prejudicou o País.

Agora, não há dúvida que as equipes técnicas do governo, e não falta doutor, poderiam ter prevenido o susto e evitado o raio que caiu. Falharam. A queda de valor das ações da Petrobras foi parte de uma reação e avaliação do mercado, puramente especulativa e exagerada.

Como aconteceu no ano passado, nesse jogo da política de preços da Petrobras, muita, mas muita gente ganhou muito, mas muito dinheiro. E não vai ser diferente agora: os abutres do mercado já estão felizes.

Mas o problema continua, não pela ótica imposta pelos eméritos especuladores do mercado, mas de como vamos conciliar as nossas políticas energéticas e de transporte versus pressões internacionais de aumento de preços de petróleo. E nisso se inclui a pressão social representada pelos caminhoneiros, entre outros, que são incontroláveis, e uma força social capaz de subverter o País. E aí, gostem ou não, o papel é do governo e também é a sua responsabilidade.

Agora, os tecnocratas liberais deixarem o governo na estrada cuidando só do lucro, e o ônus ficar com o governo, não funciona. Porque o ônus fica por conta de todos e o lucro só para alguns.

  • Ex-presidente do Sebrae Minas e da Fiemg; vice-presidente do Conselho do Comercio Exterior da Fiesp; coordenador adjunto do GACINT – Grupo de análise da conjuntura internacional da USP