Rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão em Minas já resultou em pelo menos 165 mortes até o momento - Crédito: Adriano Machado/Reuters

Belo Horizonte – A Vale, maior produtora global de minério de ferro, estava ciente, no ano passado, de que a barragem de rejeitos que entrou em colapso no último mês, matando pelo menos 165 pessoas, tinha um risco elevado de ruptura, segundo um documento interno visto pela Reuters ontem.

O relatório, datado de 3 de outubro de 2018, mostra que, segundo a própria Vale, a barragem da mina de minério de ferro Córrego do Feijão, em Brumadinho, tinha duas vezes mais chance de se romper do que o nível máximo tolerado pela política de segurança da empresa.

A Vale não respondeu imediatamente a um pedido de comentário. A empresa citou anteriormente um relatório de uma auditoria independente do ano passado declarando a barragem segura e afirmou ainda que os equipamentos mostraram que a estrutura estava estável semanas antes do colapso.

O documento é a primeira evidência de que a própria Vale estava preocupada com a segurança da barragem. Isso levanta a questão de por que uma auditoria, realizada na mesma época, garantiu a estabilidade da barragem e por que a mineradora não tomou precauções, como mover um refeitório localizado logo abaixo da estrutura que se rompeu.

O colapso da barragem ocorreu em 25 de janeiro e foi a mais mortal tragédia de mineração do Brasil e o segundo desastre envolvendo uma barragem de rejeitos de minério de ferro em pouco mais de três anos no País.

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Ameaça prevista – Intitulado “Geotechnical Risk Management Results”, o relatório interno da companhia de outubro de 2018 colocou a barragem da mina Córrego do Feijão dentro de uma “zona de atenção”, dizendo que “deve ser assegurado que todos os controles de prevenção e mitigação estejam sendo aplicados”.

A barragem foi marcada para descomissionamento. Um fracasso poderia custar à empresa US$ 1,5 bilhão e teria o potencial de matar mais de cem pessoas, segundo o relatório.

Outras nove barragens, das 57 que foram estudadas, foram colocadas na zona de atenção, de acordo com o relatório.

Um outro relatório da Vale datado de 15 de novembro de 2017, também visto pela Reuters, afirma que qualquer estrutura com uma chance de falha acima de 1 em 10.000/ano deve ser levada à atenção do presidente-executivo e do Conselho de Administração.

A barragem de Córrego de Feijão tinha uma chance de colapso duas vezes maior que o “nível máximo de risco individual” tolerável, ou 1 em 5.000/ano, segundo o relatório.

“Isso não é bom, na minha opinião, especialmente se você considerar que essas estruturas são de longo prazo”, disse David Chambers, geofísico do Centro de Ciência em Participação Pública, em Montana, e especialista em barragens de rejeitos.

A Reuters não pôde verificar se o conselho ou presidente-executivo Fabio Schwartzman estavam cientes do risco.

O relatório identifica a liquefação estática e a erosão interna como as causas mais prováveis de uma falha potencial.

Ainda não se sabe a causa do colapso da barragem em Brumadinho, mas uma autoridade ambiental do Estado disse à Reuters, neste mês, que todas as evidências apontavam para a liquefação.

A liquefação é um processo pelo qual um material sólido como areia perde força e rigidez e se comporta mais como um líquido. Foi a causa de outro colapso mortal em 2015, que resultou no pior desastre ambiental do Brasil.

“Nós costumávamos dizer que esses tipos de incidentes de mineração eram atos de Deus, mas agora nós os consideramos fracassos na engenharia”, destacou Dermot Ross-Brown, engenheiro da indústria de mineração que leciona em instituição no Colorado. (Reuters)