O cenário eleitoral impactou o Índice Bovespa, que encerrou o dia com queda de 0,58% - Foto: REUTERS/Paulo Whitaker

São Paulo – O dólar subiu 1,17% e fechou ontem, com o maior valor do Plano Real, em R$ 4,1998. Preocupações com as eleições seguiram ditando o ritmo das cotações no mercado de câmbio e o real se descolou de outras moedas de países emergentes, que ontem subiram ante a divisa norte-americana. A Argentina foi outra exceção e o dólar chegou muito perto de 40 pesos, o que também contribuiu para o clima de maior nervosismo no Brasil. No mercado futuro, o dólar para outubro fechou R$ 4,2140, sinalizando que a moeda pode testar esse novo patamar.

Até ontem, a maior cotação do Plano Real, implementado em 1994, havia sido atingida em 21 de janeiro de 2016, de R$ 4,1705, refletindo uma decisão inesperada do Banco Central de manter a taxa Selic inalterada, quando todo o mercado esperava uma alta de 0,25 ponto percentual. O BC seguiu fora do mercado ontem, sem ofertar novos recursos, fazendo apenas a rolagem de contratos de swap. A última atuação da autoridade monetária foi dia 31 de agosto, quando realizou leilões de linha com compromisso de recompra.

No cenário político, os profissionais destacam que o clima é de cautela, com os investidores aguardando a nova pesquisa do Datafolha, que sai na noite de hoje, e monitorando os rumos da campanha de Jair Bolsonaro (PSL), após ele ser submetido a nova cirurgia, de emergência.. Para o operador de câmbio da Fair Corretora, Hideaki Iha, a preferência do mercado era Geraldo Alckmin (PSDB), mas os agentes têm menos medo de Bolsonaro do que de Ciro Gomes (PDT) ou Fernando Haddad (PT).

O analista da gestora Bulltick em Miami, Klaus Spielkamp, disse que atende clientes de vários países da América Latina e a percepção deles em relação ao Brasil é a mesma: a elevada incerteza sobre o resultado das eleições, que pode ter a volta de um governo de esquerda ou a vitória de um nome de extrema direita ou ainda outros com perfis mais moderados
Na dúvida, afirma o analista, muitos agentes preferem ficar fora do risco Brasil por enquanto, ajudando na disparada do dólar, das taxas do Credit Default Swap (CDS), derivativo de crédito que protege o investidor contra calotes na dívida soberana, e do EWZ, maior fundo de índice que reproduz ativos brasileiros em Nova York. Hoje, o EWZ caiu 1,7% e acumula perda de 25% no ano.

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Bovespa – Na contramão das bolsas de Nova York, o Índice Bovespa teve um pregão de perdas ontem,, mais uma vez influenciado pela indefinição do cenário eleitoral doméstico. O índice chegou a registrar leve valorização no início dos negócios, mas perdeu sustentação e migrou definitivamente para o terreno negativo, chegando ao fechamento com 74.686,67 pontos, em baixa de 0,58%.

A alta do dólar ante o real foi importante termômetro dos temores do mercado e exerceu influência determinante no viés de baixa do Ibovespa, segundo operadores. Ao contrário do que vinha ocorrendo dias atrás, nem mesmo as ações de empresas exportadoras escaparam da queda, no dia em que a moeda americana atingiu seu maior valor nominal desde o Plano Real.

As ações da Petrobras também tiveram importante influência sobre os negócios do dia. Petrobras PN respondeu pelo maior volume de negócios do dia (R$ 670,3 milhões) e teve queda de 1,27%, refletindo em boa medida a queda dos preços do petróleo no mercado internacional, em meio a sinais de aumento de oferta da commodity. Petrobras ON caiu 1,40%.

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Juros – Os juros futuros fecharam em alta, nas máximas, influenciados pelas incertezas do cenário eleitoral e pela pressão no câmbio, na contramão do quadro relativamente calmo ontem no exterior.

Na reta final da sessão regular, os DIs ampliaram o avanço e bateram máximas, após notícia sobre supostos repasses de caixa 2 para a campanha de Geraldo Alckmin (PSDB) durante as eleições de 2014, ao mesmo tempo em que dólar se aproximava dos R$ 4,20.

Os principais contratos fecharam com taxas todas nas máximas. A do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2020 fechou a 8,66%, de 8,476% no ajuste anterior, e a do DI para janeiro de 2021 em 10,00%, de 9,776% no ajuste anterior.

A taxa do DI para janeiro de 2023 subiu de 11,575% para 11,74%, e a do DI para janeiro de 2025, de 12,384% para 12,50%.

Para piorar, no fim da sessão, as taxas reagiram negativamente à notícia de que diálogos obtidos pela Polícia Federal entre funcionários de uma transportadora de valores usada pela Odebrecht citam supostas entregas de R$ 1,5 milhão em dinheiro vivo na casa de um ex-assessor do governo Alckmin durante as eleições de 2014. (AE)