Numa eleição tão conturbada e envolvida numa tensão prolongada, preocupante e cansativa das partes em disputa, o protagonismo, do ponto de vista histórico e da construção democrática, foi da “população brasileira”, que compareceu às urnas e cumpriu, na sua maioria, o dever cívico e soberano de eleger Jair Bolsonaro, presidente do próximo governo e o PT, como uma das forças a ocupar a oposição política.

Não é a primeira vez que o povo brasileiro faz isso: marcando mais um belo tento na sua caminhada rumo à democracia, e desta vez, mandando um recado especial para a classe política, os partidos grandes, para as elites, para a mídia e para a esquerda capitaneada pelo PT, incapaz de fazer autocrítica e reconhecer seus erros políticos e éticos.

Como todo aprendizado, a melhor maneira de concretizá-lo é “fazendo”. No caso em pauta, comparecendo em massa às urnas e tomando posição como cidadãos e cidadãs. Essa vivência pedagógica da democracia iniciou-se em 1989, com a eleição de Fernando Collor de Mello. Pouco depois de elegê-lo, o próprio povo entendeu que sua vitória (a de Collor) foi uma vitória apenas eleitoral e não política para a Nação. O caçador de marajás não tardou a ser cassado democrática e constitucionalmente, através do impeachment.

Com o advento do pluripartidarismo tivemos duas aulas de democracia em 1994 e 1998, quando duas vitórias eleitorais brindaram o PSDB (social-democrata?) na pessoa do príncipe dos sociólogos, Fernando Henrique Cardoso, intelectual que resistira brilhantemente ao autoritarismo, aqui na Pátria e no exílio.

Na quarta aula de democracia em 2002, os brasileiros e brasileiras, já com maior experiência eleitoral e, a meu ver, sabedoria política, elegeram o PT (socialista?), na pessoa de Luiz Inácio Lula da Silva, que emergiu das greves dos anos 70 e das lutas populares e sindicais “como um líder nordestino, forjado metalúrgico no ABC, verdadeiro sol, que iria iluminar o Brasil inteiro”, – na palavra do querido mestre, jornalista Dídimo Paiva, então presidente do nosso sindicato (SJPMG) em Minas. Como FHC, Lula foi reeleito em 2006, adquirindo altos índices de popularidade e renome no exterior.

Em 2006 entramos na era dos “postes”. As aulas democráticas neste ano e em 2010, elegeu a 1ª presidente mulher, pela força política do lulopetismo, a ex-guerrilheira e economista, ex-pedetista gaúcha, nascida em Minas, Dilma Rousseff.

Chegamos assim a 2018, calejados pelas experiências da luta política do convívio com a classe política e seus partidos, mas orgulhosos de sermos um povo capaz de superar uma ditadura e construir, ainda que a duras penas, a sua democracia que um dia poderá até ser “popular”. Essas vitórias eleitorais foram vivenciadas nas corridas às urnas, faça sol ou faça chuva, na natureza ou na política!

Fechadas as urnas, concluídas as eleições, a luta continua, no cotidiano da vida do povo – com tarefas, posturas e deveres políticos a serem cumpridos pelo futuro governo e pela oposição – dentro do mais alto patriotismo e de relações civilizadas que nos levem a um “Reino dos Homens”, sim, aqui na terra e não nos céus.

Compartilho da visão do professor filósofo aposentado da USP José Arthur Giannotti (88) e do amigo médico e militante ambientalista Dr Apolo Heringer Lisboa nas Redes Sociais – sobre estas eleições de 2018. Sábias observações e verdadeiras.

Dois fenômenos marcam o atual momento político: a explosão e o apoio popular a Jair Bolsonaro, espontâneo e pouco organizado, sem a retaguarda de velhas siglas como PSDB, PT e MDB. O segundo, a grande e crescente rejeição do PT.

Gratificante foi ouvir o presidente eleito  fazer referências à Constituição, à democracia, à liberdade. Sinal que as “forças ocultas” do conservadorismo, que por acaso estejam à sua volta, não prevalecerão no exercício do poder. Tendendo a serem flexibilizadas. Resta saber se a oposição ouvirá o aviso que lhe veio das urnas – as mesmas que anteriormente a levou ao governo. Mas sem autocrítica e reconhecimentos de seus erros passados, não terá ouvidos para a voz das urnas. Pena que tanto Jair Bolsonaro quanto Fernando Haddad após os resultados falaram apenas a seus militantes mais que ao “povo brasileiro”- expressão tão cara a Darcy Ribeiro, de feliz memória.

* Jornalista e embaixador