O Brasil inteiro, consternado, acompanhou o incêndio que destruiu, na noite de domingo, o Museu Nacional na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro. Em poucas horas um acervo de mais de vinte milhões de peças, registros históricos e científicos, foi destruído, num prejuízo que não há como ser recuperado. E não há como falar em acidente ou fatalidade. Vem de longe o descaso, o pouco interesse pela cultura e sua preservação, situação que na atualidade atingiu níveis tão baixos que bastam para explicar os acontecimentos, independentemente do que possam dizer as perícias técnicas que já estão sendo feitas.

Este ano, segundo informações só agora divulgadas, o museu recebeu modestíssimos R$ 54 mil para serviços de manutenção, valor menor – pasmem – que o custo de um único voo do jato presidencial entre São Paulo e Brasília. Menor também que os ganhos mensais de algumas centenas, ou talvez milhares, de dignitários da República. Primeira residência oficial de D. João VI e berço dos dois imperadores brasileiros, a Quinta da Boa Vista e o Museu Nacional foram o principal abrigo da história e da memória de nosso País, hoje reduzido a cinzas, numa trágica coincidência que também não pode deixar de ser percebida, uma vez que acontece no momento em que valores nacionais também se apagam, consumidos por incêndio de outra natureza.

Lamentar é muito pouco, anunciar rapidamente a mobilização de recursos, vindos de bancos principalmente, para a reconstrução do palácio, também é muito pouco. Mais importante será aprender a valorizar a cultura, a memória e os conhecimentos acumulados, sabendo protegê-los. Mais importante é não permitir que o mesmo aconteça, por exemplo, no Museu Imperial de Petrópolis, onde a situação de abandono não é muito diferente, e em sítios históricos como Parati, Ouro Preto, Mariana, Diamantina, Salvador, Olinda, São Luís e outros que merecem ser lembrados. Os riscos, não tenhamos ilusões, são de proporções semelhantes.

No Museu Nacional, que abrigava um acervo, vale também assinalar, de importância mundial e era um centro de estudos e pesquisas reconhecido, a deterioração e os riscos, traduzindo evidente abandono, eram visíveis e não faltaram apenas na defesa de cuidados elementares.

Nada diferente do que se passa em outros pontos que são focais para a história e para a cultura de nosso País. São tesouros que não podem ser repostos mas que podem e devem ser cuidados e preservados. Diante do luto, mudar de atitude – e até num sentido bem mais amplo – passa a ser, para os que hoje se dizem consternados, questão impositiva.