A novela do destino do Aeroporto da Pampulha ainda se arrasta exibindo, uma vez mais, o que tem de pior a burocracia associada ao serviço público brasileiro. Na semana passada, conforme noticiado, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) liberou a certificação para que o aeroporto seja utilizado por aeronaves comerciais de maior porte, o que num primeiro momento pareceu indicar que a pendência abre-não-abre tinha chegado ao capítulo final.

Não foi o caso. A Pampulha já pode receber jatos de maior porte, aqueles que as linhas aéreas comerciais utilizam em voos domésticos, mas isso não quer dizer necessariamente que eles poderão voltar a decolar e descer na Pampulha, como muitos desejam e outros tantos não.

Para o primeiro grupo, a notícia foi recebida com alguma euforia, interpretada como o fim das restrições que consideram inadequadas. Agora já se sabe que não é assim tão simples. Falta manifestação do Tribunal de Contas da União (TCU), que em medida cautelar proibiu o uso da Pampulha para voos comerciais interestaduais e promete não adiar muito sua decisão final sobre a questão. Prossegue o embargo e, supõe-se, também a contrariedade das partes em conflito, sobrando como única certeza o peso, ainda que um tanto irracional da burocracia, um gosto que teríamos herdado de nossos colonizadores.

É evidente que tanto tempo perdido não faz o menor sentido porque se traduz em prejuízos e insegurança. Em princípio, perdem os investidores em Confins mas também perdem os operadores da Pampulha, assim como os negócios de suporte em um e outro ponto, perdem os operadores e perdem os usuários do transporte aéreo. E não parece nada razoável deixar de acreditar que seja possível chegar a uma solução equilibrada, inteligente, que não prejudique Confins e os investimentos ali realizados, mas igualmente não condene ao abandono um equipamento público do porte e da importância do Aeroporto da Pampulha.

É desse equilíbrio, que acreditamos possível, que estamos falando, sem deixar de reconhecer os interesses dos concessionários de Confins e igualmente ressaltando a importância da Pampulha. Na realidade, não nos parece difícil entender que os dois aeroportos podem ser complementares, atendendo a públicos e necessidades distintas, o que não será muito diferente do que ocorre na maioria das grandes cidades em todo o mundo, que contam com aeroportos centrais. Se o assunto deixar de ser encarado apenas pelo lado da burocracia ou, pior, da disputa de interesses que não podem ser conciliados, todos acabarão perdendo. Ao contrário, se prevalecer o entendimento de que na realidade se trata de oferecer mais e melhores serviços, em condições distintas e complementares, haverá espaço inteligente, com ganhos maiores para todos.