As contas do setor público, nos municípios, estados e União, estão estouradas e, pior, apesar do prometido, o déficit não para de crescer. Os políticos que disputarão a eleição de outubro, aparentemente têm consciência do que se passa, tanto que a maioria fala em ajustes impositivos e drásticos e, nesse particular, se aproximam do presidente Michel Temer, que também chegou ao poder anunciando que o ajuste fiscal seria a pedra de toque de sua gestão. Para reequilibrar as contas, devolver confiança aos agentes econômicos e, dessa forma, criar condições para que a economia voltasse a crescer com mais vigor.

Parece claro, as estas alturas, que as boas intenções esbarraram na resistência dos políticos, deputados e senadores, que preferiram deixar de lado temas espinhosos exatamente por conta da aproximação das eleições. Foi o destino, principalmente, da reforma da Previdência que para ser eficaz teria que acabar com privilégios que se traduzem em enormes desigualdades entre os setores privado e público, além de gerar uma conta que a rigor já não se pode pagar. É certo que a estas alturas o abacaxi ficará mesmo para o próximo governo, ainda que tenha surgido em Brasília a ideia de que sejam feitos alguns ajustes depois das eleições, facilitando assim a vida de quem tomar posse em janeiro.

Com algum humor e bastante ironia, um empresário mineiro se referiu aos privilégios e distorções existentes afirmando que no País o carrapato ficou maior que a vaca, lembrando que ao contrário do que se proclama não são, na esfera pública, direitos adquiridos, mas sim privilégios adquiridos. Daí a dificuldade de mudar, de enfrentar os interesses que serão contrariados e que são exatamente daqueles que têm o poder de decidir e de mudar, uma vez que o espaço político e de alta burocracia pública se misturam e se confundem.

Hoje os políticos-candidatos, quase todos, falam em cortar gastos e eliminar privilégios para agradar a plateia e na esperança de colher votos. Em tese, se eleitos, poderão, como tantos outros fizeram antes, esquecer o que andam dizendo e prometendo. A diferença, agora, é que o peso do Estado brasileiro, passou dos limites, o que se traduz exatamente no tamanho do déficit e no crescimento da dívida pública e, fechando o círculo, nas evidências de que não existe mais espaço para elevar tributos. Resta a imagem do carrapato e da vaca ou uma outra, também de um empresário, para quem o Estado não cabe mais no PIB do País.

Sobra dessa forma a conclusão de que mudar a cultura de privilégios e favores não é mais uma questão de vontade, mas sim de entender que a conta estourou e não pode mais ser paga.