Nas contas do atual governo mineiro, o Estado enfrentará no próximo ano um déficit que passará dos R$ 11 bilhões, valores que o próximo governador, Romeu Zema, já informa não ter como reequilibrar rapidamente. Assim, para ele, e mesmo com algum constrangimento, a solução será negociar com o governo federal, num acerto que Fernando Pimentel desconsiderou por entender que impunha ao Estado condições inaceitáveis. Nessa história, que em primeiro lugar deveria ser melhor esclarecida, de sorte que pudesse ser apurada e revelada a exata natureza do desequilíbrio existente bem como os responsáveis pela situação, o curioso é que os dois podem ter razão.

Pimentel não tinha porque aceitar, por exemplo, a privatização da Cemig a preço de liquidação, muito menos injunções que, na prática, se aproximavam de uma virtual intervenção. Não, pelo menos, antes de verificar a exata natureza da conta que nos está sendo cobrada, valores e encargos que soam tão inexplicáveis quanto impagáveis. O problema, que propriamente pode ser chamado de herança maldita, fica para Zema e para o presidente eleito Jair Bolsonaro. Que os dois tenham bom senso e boas intenções, visando alcançar o melhor. Quem sabe, colocando nessa conta os valores devidos a Minas Gerais em compensação à da chamada Lei Kandir, assunto que anda esquecido, mas tão importante que eventual acerto poderia resultar num saldo favorável a Minas Gerais.

Repetindo, o ponto de partida, ficando entendido que não existem más intenções, é primeiro conhecer a verdade e, segundo, chegar ao razoável, considerando que de um lado e de outro estarão negociadores quebrados. E acertar as contas será apenas o começo.

Também é preciso entender as causas do déficit, como e quando ele foi gerado. Claro, algo cuja expressão mais simples é disciplina nos gastos que, sistematicamente, nos últimos anos cresceram mais que as receitas. Se olhar nessa direção o governador Zema, assim como o presidente da República e os demais governadores, aparecendo como única exceção o do Espírito Santo, terão que enxergar as gorduras que se acumularam no funcionalismo e na previdência pública.

Não tem saída senão entender que os “penduricalhos” mencionados por Bolsonaro produziram uma situação que o futuro governador mineiro ilustrou com uma imagem curiosa, dizendo que o “carrapato ficou maior que o boi”. Esse processo, é evidente, precisa e tem que ser contido porque, antes de representar “vantagens” ou “direitos adquiridos”, representam uma conta injustamente transferida à sociedade na forma de tributos que também não podem ser suportados. Com este olhar e para o conjunto da população o cenário pode, afinal, não ser tão desagradável quanto Zema imagina.