Cleia Viana/Câmara dos Deputados

Alguém já disse, sobre o Congresso Nacional, que, se coberto com uma lona, estaria muito próximo de ser um circo. A comparação, certamente ofensiva aos artistas, tornou-se ainda mais pertinente depois dos acontecimentos na Comissão de Constituição e Justiça na última quarta-feira, durante depoimento do ministro da Economia, Paulo Guedes, convidado a falar sobre a reforma da Previdência, apresentando e discutindo seus pontos mais polêmicos.

Depois da sessão, que foi encerrada às pressas e por absoluta falta de condições de prosseguimento, ficou claro, a um só tempo, o descompromisso dos parlamentares – as exceções, que existem, não tiveram voz – a falta de compostura e o mais completo distanciamento com relação aos temas que são de interesse público. Isto na Comissão de Constituição e Justiça e na apreciação, apenas preliminar, de um tema que, queiram ou não, diz respeito ao futuro do país. Futuro imediato, convém assinalar.

Paulo Guedes, o ministro que dizem ser daqueles que tem “estopim curto” e, ao contrário de muitos, talvez a maioria de seus interlocutores, absolutamente nenhum interesse particular em permanecer na cadeira que ocupa presentemente, até que tentou se comportar bem, com a humildade de assinalar sua falta de intimidade com as lides parlamentares, prometendo paciência e pedindo paciência.

Nem de longe foi o que aconteceu e o tema a ser debatido serviu apenas de escada para os oposicionistas. Impressiona, nesse comportamento, as proporções da leviandade, com acusações rasas e sem qualquer anotação sobre como, afinal, garantir sustentação a um sistema que acumula déficits crescentes e distorções que alimentam desequilíbrios sobre os quais, sintomaticamente, também nada foi dito.

Sobraram descompostura e grosseria, além de uma abissal ausência de ideias, de propostas a considerar, sobretudo aquelas capazes de melhorar o projeto em discussão. Nesse clima, evidentemente, o propósito da reunião, atrelado às obrigações da Comissão – simplesmente apreciar os aspectos constitucionais da proposição – passou ao largo, enquanto sobraram exibições de falta de decoro ou, mesmo lembrando a imagem do circo que abre este comentário, de educação.

Em síntese, um espetáculo grotesco e triste, expondo também a falta de rumos e, nesse ambiente, fazendo crescer os temores daqueles que não veem como, nas circunstâncias, possa o país vencer o atraso, recuperar o tempo perdido para então dar inicio à tarefa de construir um futuro melhor, sabendo aproveitar seus recursos e suas potencialidades para, em resumo, entregar mais aos brasileiros, conforme a promessa que os homens públicos não estão sabendo honrar.