Crédito: REUTERS/Adriano Machado

Mais calmo e mais articulado – alguém recomendou-lhe tomar suco de maracujá antes da sessão –, embora não menos contundente, o ministro Paulo Guedes voltou à Câmara dos Deputados na semana passada para discutir, ou rediscutir, a proposta de reforma do sistema previdenciário.

Nas discussões, mais uma vez, as evidências de que são poucos, muito poucos, os que estão, de boa-fé, discutindo os problemas do País e buscando, com o melhor de si, construir soluções. O debate é político e, pior, interesseiro, com as mesmas técnicas de sempre. Quem é oposição bate, condena, critica, mas não passa nem perto de propor alternativas que sejam, de fato, soluções. Prevalece, na visão dessa gente, e uma vez mais, a teoria do quanto pior melhor. E tudo isso, diga-se em nome da verdade, não muito diferente do que faziam os que hoje estão na situação e que até tão pouco tempo diziam ter as chaves do paraíso. No Brasil e nos brasileiros tem pouca gente pensando, deixando claro que na política esse assunto continua sendo, salvo poucas exceções, a medida única da conveniência.

Na sessão comentada isso ficou bem claro quando uma deputada, arguindo o ministro da Economia, definia como absurdas e despropositadas duas propostas, lembrando-lhe que existem hoje no País mais de 13 milhões de desempregados. Guedes, no seu melhor estilo, não perdeu a oportunidade. Lembrou à deputada, que essa situação foi construída nos dezesseis anos que a oposição esteve no poder e se eles não encontraram a solução não é nada razoável transferir a responsabilidade a quem está completando apenas quatro meses no governo. A deputada, que não insistiu no assunto, perdeu uma boa oportunidade de ficar calada e deu munição à situação.

O fato é que existe uma grave situação a ser enfrentada, existem problemas que pedem soluções, e esta deveria ser uma responsabilidade conjunta, partilhada e defendida conforme as convicções de cada um, mas sem que a ninguém seja dado o direito de distorcer a realidade, muito menos de barganhar. A propósito, já é comentado em Brasília que a hipótese de criação de mais dois ministérios é cogitada, com riscos de que se repitam os métodos e as barganhas que ajudam a explicar as contas que agora não têm como ser pagas. Se nada disso sensibiliza, faltaria lembrar, concluindo, que no Brasil 47% de renda previdenciária está nas mãos de 15% dos beneficiários, enquanto 82% dos benefícios, que alcançam 30 milhões de indivíduos, equivalem a dois salários mínimos no máximo. Eis a monumental transferência de renda, aquilo que já foi chamado de parte do processo de apropriação do Estado, que precisa ser corrigida para defender os mais necessitados e acabar com privilégios. Tarefa difícil, porque quem manda e decide está no segundo grupo.