Crédito: Alisson J. Silva/Arquivo DC

A indústria brasileira parece ter perdido a perspectiva de futuro e vai morrer se o País não for capaz de alterar, rapidamente, este curso. A avaliação é de um executivo do setor de transportes, dirigente de uma empresa transnacional com operações no País. Seus pares têm visão semelhante, lembram que mesmo mantendo um volume de produção que se conta entre os dez maiores do planeta, mas apontam que o País aparentemente não se dá conta das transformações em andamento, que exigirão a reinvenção do setor, processo que deverá se completar em menos de três décadas e no qual o Brasil não parece ter lugar. É o inverso do que se imaginava há bem pouco tempo, quando o setor chegou a estar entre os cinco maiores do Planeta e, ao lado da China, dono das melhores perspectivas de expansão, condição que, na virada do século e pouco adiante, atraiu para o país novos investimentos e novas montadoras.

Na perspectiva mais atual, a ideia é a de que o País está perdendo a corrida da inovação, situação identificada nas perspectivas de grandes mudanças nos propulsores, sobretudo de veículos leves, com substituição de motores a explosão por elétricos e ou a hidrogênio, pela introdução de veículos autônomos e mudanças profundas na sua utilização, com o compartilhamento, por exemplo. Para os especialistas e estudiosos, tudo isso virá, demandando grandes mudanças em todas as áreas da indústria automotiva, processo já em andamento e tendente a ganhar velocidade. Para o Brasil, o risco concreto é ficar de fora, não encontrar lugar nesse novo contexto, onde também não haverá lugar para a velha indústria. Nesse ambiente, parece, tentar vender a ideia de que o Brasil poderia se diferenciar pela oferta de etanol e sua utilização associada a veículos híbridos, conforme sugerem algumas fontes oficiais, parece mais próximo da ilusão que de algo que possa fazer sentido.

A indústria brasileira, que tem justamente no setor de material de transportes um de seus pilares, está encolhendo, num processo que já foi descrito de desindustrialização. De concreto, isso significa um empobrecimento que já é perceptível e que, para ser revertido, exige que o País volte a ser competitivo, enfrentando seus problemas fiscais e tributários, melhorando a gestão pública e, em síntese, alcançando capacidade de acompanhar a construção do futuro. A indústria automotiva, que chegou ao País em meados do século passado exatamente como símbolo das transformações desejadas, ilustra bem o que se passa e, como apontam seus representantes, o que é preciso fazer. E aqui também cabe o entendimento de que não dá para esperar, muito menos para cruzar os braços.