Crédito: Jonathan Ernst/Reuters

A “Cortina de Ferro” é coisa do passado, a Guerra Fria teria acabado faz tempo e, se as previsões tivessem se confirmado, o planeta entraria num círculo virtuoso, com seus recursos materiais e tecnológicos voltados, finalmente, para o bem, para a construção de uma sociedade mais justa e mais equilibrada, em que a convivência e a paz seriam valores predominantes.

O que se imaginou, sobretudo depois que o Muro de Berlim caiu, foi apenas mais uma utopia e conflitos armados, tendo como pano de fundo os mesmos elementos, continuaram se repetindo, produzindo centenas de milhares de vítimas, milhões talvez, num escalada que não cessa. Hoje parece pior.

O presidente dos Estados Unidos faz ressurgir antigas crenças, enxerga inimigos em tudo com o que não concorda, se imagina senhor do mundo e acredita poder impor a sua vontade, sempre que conveniente. America First.

A escalada é evidente e absolutamente visível, sustentada pela propagação do medo, que por sua vez possibilita a imposição da vontade dos mais fortes, num retrocesso em que Rússia e China fazem o contraponto, hoje movidos menos pela ideologia e mais por interesses comerciais e estratégicos.

Enquanto isso, enquanto os gastos com armamentos atingem níveis inéditos, aumenta também a concentração da renda e a pobreza nos países periféricos, num desequilíbrio que é tanto injusto quanto absolutamente irracional.

Exatamente o oposto de tudo que se imaginou – de bom – quando, precipitadamente, a Guerra Fria, espécie de ensaio para um terceiro e provavelmente último conflito de proporções mundiais, foi dada como encerrada. Nem a paz nem a racionalidade, por suposto mais compatíveis com a inteligência humana, floresceram.

Hoje parece pior, os sinais são inquietantes. As potências globais se imaginam donas do monopólio da força e do poder dele decorrente. Falam em desarmamento, defendem a desnuclearização, mas dos outros, cada grupo protegendo seus satélites.

Da China vêm notícias de conceitos novos de armamentos, frente aos quais não haveria possibilidade de defesa e mais ou menos o mesmo dizem os russos, acrescentando que apenas buscam respostas eficazes para as ameaças que vêm da América do Norte, como o recente anúncio da liberação de uma verba de U$ 2,6 bilhões destinada ao desenvolvimento e construção de um míssil hipersônico, capaz de viajar a 11 mil quilômetros por hora. Em resumo, nada que faça sentido.

Não, pelo menos, para os que não se conformam com a pobreza que também se espalha, com a fome e a miséria que alcançam, para boa parte da humanidade, padrões inéditos, escancarando uma insensatez que parece não ter fim.