Créditos: Gil Leonardi/Agência Minas

As celebrações da Semana Santa em Ouro Preto, que guardam belas e seculares tradições, foram quebradas este ano por manifestações políticas a todos os títulos inoportunas, independentemente da corrente que julgou próprio se manifestar, confundindo, ou conspurcando, seus direitos de expressão.

Era um momento de religiosidade, de católicos, associado a rituais que carregam tradições que são hoje também culturais e singulares, não estando reservado a ninguém o direito de delas se apropriarem. Mas aconteceu. E, provavelmente, buscando os focos do interesse midiático, com utilização justamente dos tapetes de serragem multicoloridas, cobrindo as ruas por onde passa a procissão. Um momento exclusivamente de fé católica e de tradição, a ser, como tal, guardado e, sobretudo, respeitado.

Houve quem pensasse diferente, tentando se aproveitar da ocasião para levantar suas bandeiras, cujo mérito não é o propósito desse comentário. Assim, alguém chegou a desenhar tapetes com mensagens alusivas ao assassinato, no Rio de Janeiro, da vereadora Marielle, cobrando esclarecimentos e justiça, outros pediam a libertação do ex-presidente Lula e não faltaram até bandeiras ou símbolos de clubes de futebol.

Evidentemente as extemporâneas manifestações foram contidas, por ordem das autoridades eclesiásticas locais e executadas pela Guarda Municipal, que desmanchou os tais tapetes. Não faltaram reações e vitimização, como se tivesse havido algum tipo de agressão aos direitos à manifestação e à expressão.

Nesse país em que cotidianamente valores são desvirtuados, em que princípios básicos da atividade política e até do convívio social parecem esquecidos e comprometidos, urge recolocar as coisas nos seus devidos lugares e o que aconteceu em Ouro Preto enseja essa reflexão, que, na realidade, deve ser mais ampla.

Não é tolerável confundir direito de manifestação com abuso, no caso transformado em agressão aos organizadores das festividades da Semana Santa e aos fiéis. Da mesma forma que não são toleráveis manifestações que se transformam em ocasião para vandalismo, para a destruição do patrimônio público ou privado ou para o cerceamento do direito de terceiros.

É o caso da interrupção do tráfego em vias públicas ou rodovias, banalizados e às vezes realizados por meia dúzia de gatos pingados, ignorando o direito de ir e vir, que é sagrado. O mesmo se aplica à ocupação de prédios públicos ou não.

Como em Ouro Preto, agora, não se pode continuar tolerando esse tipo de atitude, que nada tem que ver com política ou liberdade. É abuso e dessa forma deve ser tratado, respeitadas as leis e os princípios de convívio social.