Por razões óbvias, em especial a extensão das perdas humanas, o colapso da barragem de rejeitos em uma das minas da Vale em Brumadinho continua no centro das atenções. É preciso apurar as causas do desastre, estabelecer se tanto as construções quanto as operações foram mantidas dentro das boas técnicas ou, ao contrário, se teria havido algum tipo de negligência. Apurar é tão importante quanto estabelecer responsabilidades e punir, se for o caso. O mais importante, contudo, é aprender, fazendo tudo o que for possível para que tragédias como esta não se repitam, especialmente em Minas Gerais onde operam aproximadamente seis centenas de equipamentos semelhantes.

Aprender e aprender mais amplamente, sem permitir que os acontecimentos comentados produzam uma espécie de cegueira. Estamos nos referindo, de uma maneira mais ampla e procurando chamar atenção para o problema, às condições dos equipamentos públicos no País, no geral envelhecidos e, como regra, sem que recebam manutenção. Cabe lembrar, a título de ilustração, que em poucos meses três viadutos em vias urbanas, um em Brasília e dois em São Paulo, tiveram parte de suas pistas afundadas por falta de manutenção. Sorte, muita sorte, impediu que houvesse perdas humanas ou danos materiais mais significativos.

Fica, no entanto, o alerta que não deve ser desconsiderado, como aconteceu em Mariana há três anos. No Brasil, e por circunstâncias que são amplamente conhecidas, investimentos públicos estão sob contingenciamento faz tempo, o mesmo acontecendo com a manutenção dos equipamentos disponíveis. Eles estão abandonados, estão sendo progressivamente sucateados e, além de riscos, esta situação implica em enorme prejuízo material para o País. Estamos falando de vias urbanas, poderíamos falar de rodovias, nesse caso lembrando que já no tempo do presidente José Sarney, empossado em 1985, foi lançado um programa de emergência para recuperá-las e jamais executado. Poderíamos lembrar que barragens não são exclusivamente aquelas utilizadas nas minerações.

Poderíamos também lembrar que mesmo em Brasília, o centro do poder e assim permanentemente sob holofotes, é visível a degradação dos equipamentos públicos, como regra entregues a um abandono proporcional ao tamanho do buraco nas contas públicas. A ameaça consequente é permanente, assim como os riscos. Até que aconteça uma nova tragédia, todos parecem preferir fazer de conta que não estão vendo, como se guardassem energia e indignação apenas para protestar diante do fato consumado, repetindo, como agora, as arengas sobre impunidade, reclamando prisões, mas sem enxergar que todos somos um pouco culpados, minimamente por omissão.