O fundador da Localiza, Salim Mattar, hoje secretário do Ministério da Economia, responsável pelo programa de privatizações do novo governo, gostava de lembrar, em conversas com seus pares, que o Estado brasileiro se tornara maior que o próprio Produto Interno do País, maneira simples e direta de explicar as proporções do desajuste das contas públicas. E acrescentava o que apontava como um fato no mínimo inusitado, num país de 12 ou 13 milhões de desempregados nenhum deles era funcionário público. Em Minas, onde a folha de pagamentos já consome perto de 80% da receita estadual, o governador Zema prevera uma imagem curiosa para definir o que se passa. Segundo ele, o carrapato tornou-se maior do que a vaca.

Ambos estão falando de uma realidade que não é nova, que vem das raízes do processo de construção do Estado brasileiro, ou quando D. João VI desembarca no Brasil tendo ao mesmo tempo que agradar a corte que o acompanhava, muito a contragosto, e a elite local, temerosa de perder seu espaço e seus privilégios, o que de fato, pelo menos em parte, aconteceu.

Desse caldo, em que a troca de favores, na escala do poder e influência de cada um, era mandatária, vieram os elementos que nos permitem compreender as palavras – e preocupações – tanto do empresário quanto do governador mineiro.

Mudar é impositivo, pela simples razão de que os erros e más práticas acumuladas durante tanto tempo produziram um quadro que não mais se sustenta. O carrapato a estas alturas já consumiu todo o sangue da vaca e, a rigor, de nada lhe adiantará afirmar que tem “direitos adquiridos”, essa expressão cunhada para legitimar a apropriação do Estado pelos políticos e pela burocracia alojada em sua órbita. Tais considerações nos vêm não propriamente a propósito do desequilíbrio orçamentário já mencionado, que envolve União, estados e municípios, e sim da notícia recente de que oito estados, Minas Gerais inclusive, endereçaram correspondência ao Supremo Tribunal Federal (STF) em que demandam o restabelecimento da medida que prevê a possibilidade de redução da jornada de trabalho de servidores públicos, com o correspondente corte de vencimentos. Parece ser um caminho que de uma forma ou de outra, mais dia menos dia, terá que ser percorrido.

Como diria o governador Zema, a vaca está agonizante e, nessas condições, seria recomendável verificar também, e em todos os níveis da administração pública, as condições do “cabide de empregos” que todos sabemos existir. Agir assim, a estas alturas, não é uma questão de opção e sim de falta de opção. E sem que seja preciso lembrar da moralidade que abre espaços, que não são pequenos, para funcionários fantasmas.