Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Conforme esperado e antecipado pelas fontes mais bem informadas de Brasília, a Semana Santa chegou e a proposta de reforma da Previdência não foi votada na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados.

Com alguma dose de boa vontade, espera-se que a votação, relativa exclusivamente à constitucionalidade da proposta do Executivo, aconteça na semana que entra.

Estamos falando de um atraso que já dura décadas e que pode ser debitado exclusivamente aos interesses corporativos que, sem exagero, sequestraram a maior parcela da renda nacional, deixando as finanças públicas no limiar da sustentabilidade. Os números são de fato impressionantes.

Em primeiro lugar, e conforme revelou em recente palestra para a Câmara de Dirigentes Lojistas o ex-ministro Fernando Brant, os gastos do País com o sistema previdenciário já equivalem a 78% do Produto Interno Bruto (PIB), somando R$ 700 bilhões/ano, contra R$ 130 bilhões gastos com saúde e R$ 70 bilhões com educação e, muito pior, para que seja atendida apenas 9% da população, enquanto de uma forma ou de outra 91% dos brasileiros pagam a conta.

Como alguém já disse, não há nenhum exagero na afirmação de que este movimento constitui o maior e mais perverso processo de transferência de renda já registrado. Também não soa exagerada a afirmação de que na prática o Estado brasileiro, ou sua receita, foi sequestrada por um pequeníssimo grupo de pessoas. E revolta saber que as aposentadorias e pensões relativas ao setor privado ficam na média de até 2 salários mínimos, enquanto no serviço público a variação fica entre R$ 10 mil e R$ 30 mil, podendo ir muito mais além, passando dos R$ 100 mil.

Esse fato ajuda a compreender por que os déficits de um e de outro sistema sejam equivalentes, porém no primeiro caso a diferença resulta do atendimento a aproximadamente 30 milhões de pessoas, número que no setor público não passa de um milhão.

Tudo isso, como também lembra o ex-ministro Roberto Brant, que ocupou a pasta da Previdência no governo de Fernando Henrique Cardoso e nessa segunda-feira falará aos diretores da Associação Comercial de Minas, provoca indignação quando se constata que decisões fundamentais vão sendo procrastinadas e fica fácil perceber que, ao contrário do que dizem alguns, não são os mais pobres que serão prejudicados e sim os mais ricos, dentro evidentemente da população previdenciária.

Tudo por conta de interesses corporativos que os congressistas, eles próprios largamente beneficiados, não ousam enfrentar enquanto propagam a também falsa ideia de que o tema é indigesto do ponto de vista eleitoral. Tudo mentira para proteger privilégios, mesmo que deles resultem uma conta que não tem mais como ser paga.