Dois bilhões de reais por ano e durante quinze anos está longe de ser pouco dinheiro em qualquer lugar do mundo e especialmente no Brasil. Por consequência, as montadoras de autoveículos instaladas no País tem o que comemorar diante do anúncio de que este será o valor das isenções tributárias que receberão em troca do incremento de seus investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Em tese faz sentido, mesmo que seja um pouco difícil compreender como e porque contribuintes brasileiros devam ser chamados, mais uma vez, a pagar uma conta que não é deles.

Mesmo que tenha piorado de posição depois de figurar, em termos de volume de produção, entre as cinco maiores do mundo, a indústria brasileira ainda faz parte do grupo que abriga as dez maiores. Não é pouca coisa, embora esta condição não guarde proximidade com os padrões mais altos de eficiência, produtividade e aplicação tecnológica. E muito menos com os avanços mais recentes, especialmente na direção da aplicação de novos propulsores, elétricos ou a hidrogênio, e sistemas autônomos que, imagina-se, serão predominantes nos próximos vinte ou trinta anos.

Ficar para trás nessa corrida significa muito mais que privar os brasileiros de acesso a produtos mais avançados, a preços mais razoáveis. Ocorre que a indústria local de material de transporte ganhou escala e tem muito espaço ainda para crescer, mas, do ponto de vista de seu equilíbrio econômico, para que esse processo seja sustentável precisará garantir presença, competitiva, também no mercado externo. Na realidade é esta a corrida que o País não deve perder, embora esteja cada vez mais distante da linha de chegada.

Tudo isso por suposto está embutido no programa denominado Rota 2030, anunciado na semana passada pelo presidente Michel Temer na solenidade de encerramento de mais um Salão do Automóvel. Se houver controle, cobrança e regulamentação eficaz pode até dar certo, no sentido de tornar o setor mais competitivo e, consequentemente, melhores e mais acessíveis os produtos que chegam ao mercado. E com muita atenção, espera-se, no desenvolvimento e na oferta de veículos elétricos ou que utilizem tecnologias que substituam os motores a explosão. Esta, claramente, é a direção do futuro e o País ainda não parece estar percebendo com suficiente clareza essa realidade.

A mudança se dará na medida em que os preços forem mais favoráveis, o que por sua vez acontecerá a partir de isenções tributárias e outros incentivos, como já acontece nos países altamente industrializados, implicando em ganhos de escala e, na ponta, na redução de preços. Esta é a verdadeira direção, é o caminho a ser percorrido.