Esperava-se, com uma dose certamente exagerada de otimismo, que o presidente Temer pudesse vetar o aumento de 16,38% para os ministros do Supremo Tribunal Federal, determinado em decisão do Senado. Não foi o que aconteceu e a lei está sancionada, com o que o teto – fictício – para os vencimentos no serviço público federal passa a ser de R$ 39,2 mil. Decisões, para dizer o mínimo, absolutamente inoportunas, fazendo lembrar de imediato o tamanho do déficit que o Tesouro carrega e a conta dos desempregados, que não inclui nenhum servidor público. Pior, o efeito dominó da decisão, que abre as porteiras de aumentos salariais, do presidente da República ao ascensorista do Palácio do Planalto, alcançando também estados e municípios. Para resumir, uma conta anual que custará aos contribuintes brasileiros pelo menos R$ 6 bilhões.

E um problema a mais para atormentar o presidente eleito, que andou prometendo cortar o que chamou de “penduricalhos”, e seu ministro Paulo Guedes, cuja capacidade de resistir por muito tempo a este tipo de injunção, dizem os que o conhecem mais de perto, seria limitada. O futuro ministro, bem-sucedido e bem alojado na iniciativa privada, simplesmente não teria paciência para trafegar nesse mundo. É bem possível que o problema não seja exatamente os valores pagos aos magistrados, mas sim a esperteza dos que transformaram esse valor em teto para o funcionalismo, ajudando assim a consolidar os desvios que fazem de Brasília, uma cidade de funcionários públicos, em dona da mais elevada renda per capita no País.

É nessa questão, entendemos, que se deve pôr foco, acabando com o tal efeito dominó que não faz o menor sentido, se não o de amarrar os laços de cumplicidade e corporativismo, que, ao fim e ao cabo, dá sustentação ao sistema. Ao mesmo tempo, e com ajuda de garantias que na realidade correspondem a privilégios, anulam por completo o mérito e o desempenho, nivelando por baixo o que tanto explica a constante corrida aos concursos públicos quanto as limitações da gestão nesta esfera. Tudo isso para dar razão a quem disse que o Estado brasileiro não cabe mais na renda nacional ou quem aponta que políticos aliados à alta burocracia se apropriaram do País, numa espécie de privatização às avessas.

Quem imaginar que seja fácil desmontar esta cadeia de privilégios estará redondamente enganado. Não será o caso de quem enxerga que esta situação ultrapassou o limite do suportável e, consequentemente, não poderá ser sustentada indefinidamente. Falta saber se ela será desmontada com alguma racionalidade, até por elementar questão de autopreservação, ou se haverá tempo e condições para correções dentro de padrões mais racionais.