Já foi dito aqui neste espaço. A Vale, que nasceu em Minas e do Estado retirou as riquezas que fizeram dela a maior mineradora do planeta, tem sede no Rio de Janeiro, é comandada por paulistas e tem hoje no Pará o centro de seus interesses maiores. De Minas fica, talvez, a dor de consciência pelas mais de trezentas mortes prováveis em Brumadinho, além do peso desse trágico evento no seu bolso. Como herança, cavas abandonadas, sem a necessária e completa reposição, e uma sucessão de barragens de contenção que representa terror para uma parcela ponderável da população mineira. Com todas suas mazelas, com toda sua indiferença e pouco caso, ainda assim a Vale, que faz tempo não é mais do Vale do Rio Doce e há muito esqueceu os planos para fazer de seu entorno um grande e diversificado polo econômico, é o passado.

Nada que seja novidade, nada que não seja sabido, inclusive os claríssimos movimentos da empresa para fazer as malas definitivamente, ainda que continue dependendo do minério local para chegar ao blend demandado por alguns de seus grandes clientes. Brumadinho e as reações consequentes podem apressar este processo, com o fechamento sucessivo de operações por exigência de órgãos ambientais ou de controle. Mas não pode sair pela porta dos fundos e sem antes acertar suas contas com Minas Gerais. É nesse sentido que o Estado, que deu suporte e muito mais à criação da empresa, tem que ser implacável. E apesar dos problemas no curto prazo do impacto no mercado de trabalho e na arrecadação, fazer desses acontecimentos aprendizado e oportunidade.

Verdade seja dita, minérios, de ferro inclusive, deram ao Estado pouco mais que o nome. É hora e oportunidade de se buscar um novo modelo, entendendo que o atual se esgotou. Diversificar e agregar valor, via utilizações mais nobres e transformação, parece ser a chave. Um Estado que tem as maiores reservas de nióbio do mundo, para apontar um único exemplo, mas sem esquecer o grafeno que aponta a direção do futuro na ciência e na indústria, tem que pensar mais alto, por vocação, por inteligência ou, pelo menos, para escapar de suas atuais dificuldades.

Minas Gerais, queira ou não, está num momento de inflexão e tanto a compreensão dessa realidade quanto o entendimento de que suas entidades de classe, de tantas e tão caras tradições, precisam retomar seu protagonismo, é fundamental.