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Cresce a dívida pública e cresce o déficit fiscal, inexistem perspectivas de retomada de investimentos na escala que se faz necessária. A economia não tem que crescer enfrentando tantas pressões e tudo isso autoriza o ministro da Economia a reconhecer que estamos todos à beira do abismo. Em outras bocas a afirmação poderia soar, simplesmente, como gesto de alguém “do contra”, que não quer ver o País e o governo dando certo. Dito por Paulo Guedes fica bem mais difícil, se não racionalmente impossível, seguir esta linha simplista, também sem enxergar que as projeções de crescimento estão sendo sistematicamente revistas para baixo. Enquanto isso, a reforma da Previdência continua sendo defendida como sinal de ponto de partida para as mudanças pretendidas, mesmo que continue cercada de polêmicas e incertezas, sendo possível que ao fim e ao cabo não seja mais que um arranjo, incapaz de salvar sequer as aparências.

Todo esse ambiente preocupa e preocupa muito, nem ajuda a mudar o humor de investidores, que apostaram muito em mudanças que não vieram. O tempo é cada vez mais curto, as dificuldades são crescentes e dentro do próprio governo já se fala abertamente que se pode perder, em pouco tempo, a capacidade de pagamentos, mesmo aqueles considerados essenciais. Lideranças empresariais, mesmo aquelas alinhadas ao governo federal, tem procurado fazer ver que é preciso agir com foco, objetividade e senso de urgência, além de melhorar a articulação política, reduzindo tanto quanto possível atritos que são absolutamente desnecessários, complicam e chegam até a revelar falta de rumo, como se fizesse algum sentido discutir, agora, pontos nas carteiras de motoristas ou como se alguém de fato pudesse acreditar que liberar, às pressas, recursos do FGTS fosse o bastante para começar a reaquecer a economia, com a recessão batendo às portas.

Deixando de lado o sentimento de urgência, a pressa imposta pelas condições, será também possível dizer que não existem motivos para surpresa. Tudo isso era previsível e tem a ver com um ponto sensível, às vezes apontado como essencial, mas sempre esquecido, engavetado por óbvia conveniência. Estamos falando da reforma política, e consequentemente lembrando de um pluripartidarismo incontrolável, em que composições, mesmo aquelas pactuadas de forma nada republicanas, já se comprovaram inviáveis. Agora mesmo não há como deixar de perceber que a reforma do sistema previdenciário por conta de conveniências muito particulares e, pior, que os que são contra, apenas são contra, reclamam contraprestações até maiores, mas nem de longe dizem, sugerem de maneira séria, como dar conta desses compromissos. Nesse rumo, é evidente, ao final todos estarão de mãos e bolsos vazios. Nada, para concluir, que pareça fazer sentido ou produza esperança.