A estagnação da economia brasileira ao longo dos últimos quatro ou cinco anos produziu pelo menos um efeito benéfico, se é que se pode considerar dessa forma o acontecido. Estamos falando do apagão de infraestrutura que fatalmente teria acontecido, caso no período considerado o ritmo de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) tivesse ficado dentro da média mundial e mais próximo dos países emergentes. Nessa hipótese, não teria sido possível atender a demanda de energia elétrica e os processos de escoamento da produção, portuário inclusive, estariam seriamente comprometidos.

Não é o caso, em absoluto, de lembrar que existem males que vêm para o bem e sim de apontar que a perda da capacidade de investimentos, públicos e privados, na prática condenam o País a um processo regressivo, cujas consequências não precisam ser elencadas diante da próxima troca na administração pública e de um novo ciclo que se iniciará. Na administração federal e nos estados o discurso mais enfático, da parte dos que estão chegando, fala da necessidade do reequilíbrio das contas, tendo como fulcro a redução e a racionalização de despesas. Será, pelo menos conforme o que é dito agora, o ponto de partida, muito embora já estejam claras as dificuldades à frente, face ao peso dos interesses corporativos que não aceitam ser contrariados.

Parece faltar, por incrível que pareça, o entendimento elementar do esgotamento, como se fosse possível continuar ignorando que, se mantidas as condições atuais, dentro de muito pouco tempo os recursos públicos serão integralmente consumidos com folha de pagamentos e aposentadorias, sem nenhuma margem para atendimento às áreas de sua competência direta, como saúde, educação e segurança pública. Tal horizonte, conforme já foi apontado, não está distante ou, talvez, já seja parte da realidade. Disso nos dão conta informações recentes e relativas às consequências da redução dos investimentos em infraestrutura.

Nessa conta não entram novas obras e novos projetos, mas apenas a redução dos investimentos em manutenção e conservação que, reduzidos a limites extremos, implica na perda parcial da estrutura existente, um capital que aos poucos vai sendo jogado fora. Dados agora revelados indicam que os investimentos feitos em 2017 e previstos para o ano corrente não bastarão para impedir o encolhimento detectado. Nos dois últimos anos os investimentos em transporte, energia, telecomunicações e saneamento ficaram pouco além de R$ 100 bilhões/ano, ou o equivalente a 1,7% do PIB, muito pouco diante das necessidades que vão se acumulando.

Eis a realidade que aos poucos vai sendo apresentada aos governantes que assumirão em janeiro do próximo ano. Sem dúvida, um desafio de proporções dramáticas.