O Tribunal Regional Federal da 3ª Região cassou a liminar que suspendia as negociações entre a Boeing e a Embraer, para alienação da divisão de jatos comerciais da empresa brasileira. Em sua decisão, o desembargador Souza Ribeiro sustenta não enxergar riscos ou ilegalidades na operação que vem sendo discutida desde o ano passado e lembrou que, além do mais, a transação se dá entre duas empresas privadas, não representando, portanto, qualquer risco ao interesse público. O desembargador tem um entendimento oposto ao do juiz Victorio Giuzio Neto, da 24ª Vara Cível de São Paulo, que acolheu os argumentos de que a transação envolve interesses estratégicos do País, não sendo recomendável que se dê no apagar das luzes do governo atual. Convém esperar, sustenta, e também evitar os riscos implícitos no recesso do Judiciário, período em que poderiam ser tomadas decisões difíceis de serem revertidas mais tarde.


De acordo com o que tem sido divulgado, estaria acertado entre Boeing e Embraer a constituição de uma nova empresa dedicada à fabricação de aviões comerciais de médio porte. Nesse novo negócio os norte-americanos teriam participação de 80%, cabendo os restantes 20% à Embraer. Fácil imaginar, nessas circunstâncias, o destino da empresa brasileira, a mais avançada no campo tecnológico e líder global no mercado de aviões comerciais de médio porte. Existe sim interesse público nessa questão, tanto que existe no contrato de privatização da Embraer uma cláusula que confere ao Estado brasileiro o poder de vetar transações que possam contrariar interesses nacionais. E estamos falando do campo em que o País mais conseguiu avançar, somando competência e inovação até chegar a uma inimaginável liderança global.


Comprar a Embraer, evidentemente, é remover um concorrente incômodo, é adquirir tecnologia e até mão de obra especializada, é comprar mercado. A Boeing está no seu papel, tenta fazer o que melhor atende aos seus interesses, principalmente depois que a europeia Airbus comprou a canadense Bombardier. O erro está do lado de cá, na ilusão de que a Embraer poderá ganhar escala e acesso a novas tecnologias. Bastaria lembrar que a Boeing chegou a líder no seu país comprando cada um de seus concorrentes e retirando-os do mercado. Não há de ser coincidência que já se diga que o nome Embraer desapareceria e que as áreas de pesquisa e desenvolvimento seriam alocadas nos Estados Unidos.


Como já foi dito aqui, tudo isso interessa e interessa muitíssimo ao Brasil, está longe de ser uma mera transação entre empresas, no âmbito dos negócios privados. Em resumo, há muito o que pensar, muito o que pesar, e absolutamente nada a ser decidido de afogadilho, como se estivéssemos, o que absolutamente também não é o caso, diante de uma proposta irrecusável.