CRÉDITO: ALISSON J. SILVA/Arquivo dc

O funcionalismo público brasileiro muito provavelmente ainda não se deu conta das proporções da ameaça que tem pela frente. Com o tempo, já longo tempo, eles foram acumulando salários e vantagens, numa desproporção que desequilibrou as finanças públicas, ajudou muito a produzir um déficit cujas proporções são desajuizadas e, se a rota do bom senso não for reencontrada, em pouco tempo mais farão dos atrasos e escalonamentos atuais uma doce saudade. Porque não haverá dinheiro, não haverá pagamentos, não haverá direitos adquiridos e mais nenhuma das vantagens, como a estabilidade, que milhares e milhares de brasileiros vão buscar nos concursos públicos, procurando na sombra generosa do Estado a ilusão da segurança. E não será mais uma questão de política ou de ideologia, mas uma impossibilidade material incontornável.

A realidade é tão concreta quanto o fato de que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) confirma que Brasília, por natureza a capital do serviço público, é também a cidade brasileira com maior renda per capita, superando com larga folga São Paulo, a cidade mais rica do País. Cabe lembrar também que estudos do Banco Mundial realizados em 2017 apontaram que os servidores públicos federais do Brasil ganham até 67% a mais do que um empregado do setor privado, em posição equivalente e com a mesma formação e experiência. Mudar, por óbvio, passou a ser questão impositiva e o Ministério da Economia já teria chegado à mesma conclusão e estuda maneiras de restabelecer alguma proporção entre uns e outros, limitando os salários à média dos valores pagos, para funções equivalentes, na esfera privada.

Trata-se, simplesmente, de reencontrar o caminho do bom senso, ou da responsabilidade, mas será de todo conveniente lembrar que o tema não é novo, tanto quanto a solução proposta que em tese já teria sido aplicada, com “piso” e “teto” largamente conhecidos, ainda que exclusivamente no espaço da ficção. Este é o verdadeiro problema e o ponto que reclama atenção de tantos quantos de fato queiram reconstruir o equilíbrio e o zelo no trato da coisa pública. Estamos falando dos famosos “penduricalhos” que inflam salários sempre que conveniente, estamos falando das “vantagens” reservadas a algumas excelências e que elevam seus ganhos efetivos mensais a mais de R$ 100 mil, embora o limite constitucional diga que o “teto”, hoje, não chega aos R$ 40 mil.

Não estamos apontando detalhes, na realidade estamos falando do verdadeiro problema a ser enfrentado, do saco sem fundos onde o déficit público foi sendo acumulado e vem sendo mantido. Resta saber se os técnicos do Ministério da Economia terão força para ousar tanto.