A Vale, antiga Companhia Vale do Rio Doce, permanece no centro das atenções, por conta do desastre acontecido em Brumadinho, em que o número de mortos até ontem chegava a 150. A empresa, que em três anos foi envolvida pela lama de duas de suas barragens de contenção de rejeitos, parece ter perdido bem mais que o nome. Perdeu valores que marcaram a sua criação e fizeram dela a maior mineradora de hematita no planeta e de seu berço, Minas Gerais, durante décadas o maior polo minerário do País, raízes que infelizmente vão sendo esgarçadas.

É preciso voltar no tempo e lembrar um pouco dessa história, que começou a ser escrita em 1911, quando o controvertido empresário Percival Farquhar funda a Itabira Iron Ore Company. O empreendimento, que levou à construção da Estrada de Ferro Vitória a Minas, nunca chegou a operar plenamente e acabou encampado pelo governo brasileiro em 1942, fazendo surgir a Companhia Vale do Rio Doce e, a partir dela, um complexo minerário de proporções globais, com decisiva participação de mineiros como Israel Pinheiro, Eliezer Batista e Fernando Reis.

Uma história que nesse período só conheceu sucessos, como a façanha de conseguir acesso, competitiva-mente, ao mercado japonês, para isso mandando construir os maiores navios graneleiros do mundo e o porto de Tubarão, no Espírito Santo, além de duplicar a Vitoria a Minas. A empresa cresceu e se diversificou rapidamente, especialmente nos anos 70 do século passado, com investimentos pesados nas áreas de fertilizantes e celulose, além de outras áreas. Nesse mesmo período a empresa localizou a maior província mineral no mundo, Carajás, no Pará, hoje centro de suas operações.

A todos os títulos, a Companhia Vale do Rio Doce era exemplo de competência e sucesso, assim reconhecidos mundialmente e sem nenhuma das marcas negativas que costumam ser observadas em empresas estatais. E foi nessas condições que em 1997, no governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso, a maior produtora de minério de ferro no planeta foi vendida por apenas U$ 6 bilhões, com financiamento subsidiado. Falta contar o que exatamente aconteceu e explicar porque, em 22 anos, o valor da empresa foi multiplicado mais de trinta vezes.

Tudo isso para não tocar no ponto central desse comentário, os desastres de Mariana e Brumadinho, manchas que a antiga Companhia Vale do Rio Doce jamais conheceu, que foi capaz de crescer com velocidade e segurança, bem ao contrário de sua sucessora. Também nessa perspectiva os acontecimentos comentados têm um profundo sentido de lição, principalmente quando voltam a tentar impor a ideia equivocada de que privatizações representam uma espécie de salvação nacional.